sábado, 16 de setembro de 2017

A metodologia na linguística ecossistêmica

Yo soy yo y mi circunstancia.
Ortega y Gasset.

1. Introdução
A questão da metodologia é uma das mais espinhosas para qualquer modelo teórico. A respeito, existem duas posições extremas. De um lado temos aqueles que a menosprezam, caso de Noam Chomsky. Em Chomsky (1988), respondendo à pergunta sobre qual era seu método de investigação, ele respondeu: 
Quanto a método de investigação, na verdade eu não tenho nenhum. O único método para investigação é olhar bem para um problema relevante e tentar levantar algumas ideias sobre como ele poderia ser explicado, mantendo a mente aberta para outras possibilidades de explicação. Mas, isto não é método. É apenas ser razoável e, até onde sei, esta é a única maneira de tratar de qualquer problema, quer seja ele um problema em seu trabalho como um físico quântico ou qualquer outro.
Há algumas áreas como a da Psicologia em que as pessoas fazem longos estudos sobre métodos de investigação. Há outras como a Física em que você não estuda métodos de investigação. De modo que no MIT o Departamento de Física não tem cursos sobre métodos experimentais, mas muitos departamentos de Psicologia usam grande parte do tempo sobre o que chamam metodologia (Chomsky 1988: 189).   
 De outro lado, temos aqueles que dedicam quase dois terços de seus ensaios falando de metodologia, o que já se pode vislumbrar nas palavras de Chomsky, que criou sua teoria contestando justamente essa visão. A área da psicologia a que ele se refere é o behaviorismo. Veremos que tanto a posição de Chomsky quanto a do behaviorismo são reducionistas, consequentemente, radicais e até mesmo parciais, uma vez que só veem um lado da questão. 
Felizmente, há também abordagens teóricas que mesclam teoria com questões metodológicas. É o que fazem o materialismo dialético e o materialismo histórico, o que parece fazer um certo sentido, ligados ao movimento marxista. Eles não distinguem teoria de metodologia, além de seguir o procedimento dialético. Essa postura é a que mais se aproxima da visão ecolinguística subjacente a este ensaio.
No caso de abordagens novas em qualquer área do saber, sobretudo nas ciências humanas, uma das primeiras perguntas que se ouve é sobre que metodologia elas adotam. Com a ecolinguística não poderia ser diferente, embora os primeiros estudiosos não tenham se dedicado ao assunto, pois sua tarefa mais urgente era mostrar que ela existia e tinha direito a um lugar ao sol. Como veremos, a variante brasileira da ecolinguística chamada linguística ecossistêmica tem levado o assunto a sério. A despeito de ser um dos ramos mais novos da ecolinguística, já dispõe de uma meia dúzia de reflexões sobre questões metodológicas, embora todas elas espargidas por diversos ensaios dedicados a outros assuntos. Em cada um deles há uma seção ou apenas um ou alguns parágrafos falando de metodologia. Porém, pelo menos Albuquerque (2015) e Silva (2015) são inteiramente dedicados à ecometodologia.
Diante de tudo isso, meu objetivo neste artigo é sistematizar tudo que já tem sido dito, tanto no Brasil quanto em outros países, e tentar mostrar como alguém que deseje estudar determinado fenômeno da linguagem da perspectiva da ecolinguística ou, mais especificamente da linguística ecossistêmica, pode proceder. Enfim, tentar deixar claro o que vem a ser a metodologia da linguística ecossistêmica, a ecometodologia, que é eminentemente uma multimetodologia. 
Aliás, a ecolinguística não está sozinha no uso da multimetodologia. Ela é adotada também na psicologia ambiental ou ecopsicologia, na sociologia ambiental ou ecossociologia, na antropologia ecológica ou ecoantropologia (a expressão "antropologia ambiental" tende a não ocorrer). Enfim, toda ciência que adota o paradigma ecológico é, em princípio, multiemetodológica.

2. Método
Meu objetivo não é discutir modelos de metodologia, que existem em grande quantidade. O que pretendo fazer é mostrar como a questão pode ser abordada ecolinguisticamente. A etimologia da palavra já dá um direcionamento sobre seu significado. Composta de metá (alvo, meta) e odós (caminho), a própria forma da palavra já diz que ela indica o caminho que se deve percorrer para ir do modelo teórico para os dados ou dos dados para o modelo teórico, para se atingirem os objetivos da pesquisa. O primeiro procedimento (teoria --> empiria) tem sido chamado de método dedutivo, ou hipotético-dedutivo; o segundo (empiria ---> teoria), método indutivo. Geralmente os praticantes de um e de outro são radicais, ou melhor, unilaterais; só consideram o lado a que se dedicam, ignorando por completo o outro. Veremos que a ecometodologia pode ir nas duas direções, partindo preferencialmente da empiria e indo na direção da teoria, como fazia o "pai" do método empírico, Francis Bacon (1561-1626), e retornando à empiria, percorrendo esse ciclo quantas vezes forem necessárias (COUTO, 2017b). Mas, ela pode também partir da teoria e ir na direção da empiria retornando em seguida à teoria, e vice-versa, em ambos os casos ciclicamente.
Um ótimo exemplo de uso do método indutivo, do estruturalismo americano, é o que foi praticado por Kenneth L. Pike, um dos formuladores da fonêmica e criador da tagmêmica, que se expandiu para a análise dos fenômenos culturais, como se pode ver no monumental Language in relation to a unified theory of the structure of human behavior (Glendale, CA: Summer Institute of Linguistics, 1954-1960). Nos anos oitenta do século passado, ele proferiu uma palestra no extinto Summer Institute of Linguistics, em Brasília. Na ocasião, ele disse que ao chegar a um grupo indígena com o qual não há nenhuma língua para comunicação, o linguista treinado em transcrição fonética mostra uma folha de árvore a alguém que se mostrar mais simpático e, se ele proferir algum som, transcreve-o como pode. Depois o linguista mostra uma pedra e transcreve o som que essa pessoa do grupo proferir. Mostra a água e transcreve, e assim sucessivamente. Ao chegar lá pela décima ou vigésima palavra, ele já estará começando a ter uma vaga ideia da fonética-fonologia da língua local. Ao chegar a umas 400 a 500 palavras, ele já terá ideia até mesmo de alguns aspectos da morfologia e da sintaxe. Com mais alguns dias de interação com os membros da comunidade e coletando mais dados, agora inclusive pequenas frases, o investigador já estará tendo uma ideia razoável da gramática dessa língua. Isso se completará quando ele estiver bastante familiarizado com a cultura local e começar a coletar narrativas.
É o melhor exemplo de aplicação do método indutivo na linguística de que já tive notícia. Eu tive o privilégio de assistir a essa palestra. Eu gostaria de acrescentar que os termos 'ético' e 'êmico' usados pelos antropólogos e outros cientistas sociais foram criados por Pike, baseado em 'fonética' e 'fonêmica'. Seu livro Phomemics (Fonêmica), de 1947, aplica essa metodologia no estudo dos sons das línguas com a finalidade de estabelecer o quadro de fonemas e, logo a seguir, criar uma ortografia para a língua em questão. Esse era fim último do procedimento criado por Pike.  
Um bom exemplo de aplicação do método dedutivo nos estudos linguísticos é a gramática gerativa de Noam Chomsky. No início, quando ela ainda era chamada de 'gramártica gerativo-transformacional', seu praticante fabricava frases com base nas regras abstratas e as testava junto a falantes nativos, a fim de averiguar se as "aceitavam" ou não. Eu me lembro de ter visto linguistas aplicando testes de 'aceitabilidade', com base no 'desempenho (performance)' dos falantes. De qualquer forma, isso era um aspecto menor da teoria, pois o que importava era a 'gramaticalidade', uma vez que era ela que refletia a 'competência' dos falantes para produzir frases 'gramaticais'. Como parte dessa 'competência', eles eram capazes de julgar o que era 'agramatical'. Vale dizer, trata-se de um procedimento diametralmente oposto ao apresentado por Pike, que Chomsky menosprezava como sendo meros discovery procedures (procedimentos de descoberta).
 Uma questão com a qual todo cientista tem que se avir é a da neutralidade relativamente ao objeto investidado, evitando que seu engajamento enviese o resultado. Em época recente, duas posições foram defendidas. A primeira é a da objetividade total, ou seja, de que o cientista deve se manter inteiramente neutro frente ao objeto de estudo. Essa é a posição do positivismo de Comte e Durkheim (LÖWY, 1985). Por outro lado, temos a posição do agrobiólogo soviético Trofim Denisovitch Lyssenko, de acordo com a qual não há neutralidade na ciência, toda pesquisa é engajada, reflete a ideologia perfilhada pelo pesquisador que, no caso dele, era o materialismo dialético e histórico (BENSUSSAN. 1982: p. 536). Como toda posição rigidamente unidirecional, para a visão ecológica de mundo aqui perfilhada as duas posições são radicalmente parciais. Na verdade, a neutralidade absoluta é impossível, mas deixar que a ideologia e as preferências do investigador dircionem os resultados é condenável. Além da detalhada discussão apresentada por Löwy (1985), vejamos o que dizem outros cientistas sociais e estudiosos de física. 
Uma questão importante é a da unimetodologia versus multimetodologia. Boaventura de Sousa Santos é claramente a favor da multimetodologia. Em Sousa Santos (1996), ele afirma que "o conhecimento pós-moderno, sendo total, não é determinístico, sendo local, não é descritivista. É um conhecimento sobre as condições de possibilidade". Para ele, "um conhecimento deste tipo é relativamente imetódico, constitui-se a partir de uma pluralidade metodológica. Cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada. Só uma constelação de métodos pode captar o silêncio que persiste entre cada língua que pergunta. Numa fase de revolução científica como a que atravessamos, essa pluralidade de métodos só é possível mediante transgressão metodológica. Sendo certo que cada método só esclarece o que lhe convém e quando esclarece fá-lo sem surpresas de maior, a inovação científica consiste em inventar contextos persuasivos que conduzam à aplicação dos métodos fora do seu habitat natural" (48-49).
Na própria física, tida como a rainha das ciências, foi demonstrado que o processo de investigação afeta o resultado. Partindo da "teoria do bootstrap" de Geoffrey Chew, cuja base matemática é a "matriz S" (scattering matrix), ou seja, "matriz do espalhamento", Capra (1995) diz que "uma metodologia que não utiliza perguntas bem definidas e que não admite nenhum fundamento firme para o nosso conhecimento certamente parece pouquíssimo científica". Para Chew, no entanto, continua o autor, é preciso entender que não há descrições verdadeiras, mas aproximadas, é preciso "reconhecer o papel crucial da aproximação nas teorias científicas" (p. 54). Afinal, "os cientistas não lidam com a verdade; lidam com descrições limitadas e aproximadas da realidade" (p, 55). Em termos linguístico-ecossistêmicos, é preciso aceitar a multidisciplinaridade e a multimetodologia. A propósito, Capra diz: "passei vários anos integrando ideias de disciplinas diversas num arcabouço conceitual que começava a se delinear com lentidão" (p. 56). Isso porque ele "aprendera com Chew que é possível usarmos modelos diferentes para descrever aspectos diversos da realidade" (p. 57). Com as devidas cautelas, não há a necessidade de ter medo do ecletismo. Tudo isso porque, como nos mostra o perspectivismo (ORTEGA Y GASSET, 1963, p. 43-67, 180-190), só conseguimos ver um pequeno aspecto do objeto investigado de cada vez. Para vê-lo na íntegra é preciso integrar diversas abordagens teórico-metodológicas. Para fazer isso, precisamos da ajuda de especialistas nas diversas áreas, uma vez que o conhecimento está altamente fragmentado. Por fim, na própria física sabe-se que o instrumento de medição afeta o objeto investigado.
Por isso, a linguística ecossistêmica utiliza a visão multilateral da ecometodologia. Ela tem consciência de que tanto os métodos indutivos quanto os dedutivos contêm uma parcela de verdade. Por isso, é preciso pôr os dois a dialogar entre si, enfim, entre indução e dedução tem que haver uma interação dialética. Por um lado, como vários investigadores já disseram, nós achamos o que procuramos, o que pressupõe um ponto de vista prévio, ou seja, algum laivo de teoria, postura dedutiva. Por outro lado, só podemos ter algum ponto de vista se já temos alguma ideia do objeto, o que pressupõe algum tipo de conhecimento ou contato prévio com ele, o que implica uma postura indutiva. Vale dizer, é difícil dizer o que veio primeiro, o ovo ou a galinha. Tudo isso justifica a posição dialética da ecometodologia. 

3. Pequeno histórico da metodologia na linguística ecossistêmica
Poderíamos começar pelos pensadores que adotaram a ideia do perspectivismo, como o já mencionado Ortega y Gasset e alguns outros. No entanto, vou partir do sociólogo marxista brasileiro-francês Michael Löwy. Diante da visão de mundo do proletariado e da burguesia, ele apresenta a seguinte pergunta, reportando-se ao livro Ideologia e utopia de Karl Mannheim:  "qual é a posição que tem as maiores chances de chegar ao máximo de verdade?" Löwy afirma que, para Mannheim, "a consciência burguesa tem um interesse social vital a esconder de si mesma, os limites de sua própria racionalidade, isto é, a burguesia não só tem a necessidade de esconder do proletariado a situação real, mas de si mesma, porque ela precisa de ilusões para acreditar em sua função histórica. O marxismo, ao contrário, representa um observatório mais elevado (grifos no original, hhc) do que a burguesia" (LÖWY, 1985, p. 81). Com efeito, "o ponto de vista do proletariado, então, não é o ponto de vista de tal ou qual fração, tal ou qual categoria, tal ou qual grupo, seja em função de critérios econômicos, nacionais, culturais ou religiosos, mas a busca de um ponto de vista universal, porque o que define o ponto de vista do proletariado é a sua universalidade, que é, digamos, o ponto de vista da totalidade, que está além dos interesses de categorias, de frações, de localidades" (LÖWY, 1985, p. 108). A "visão social de mundo" do proletariado é um "ponto de vista superior" (p. 104), como a visão que se tem a partir da cumeeira da casa ou do topo de uma montanha.
Deixando lado o viés marxista do autor, é preciso reconhecer que a imagem do observatório de cima da montanha é justamente o que interessa à ecometodologia, que a adotou, juntamente com o método da focalização de Mark Garner, comentado abaixo. Uma das observações mais interessantes de Löwy é a de que "o que define a ciência como tal é a tentativa de conhecimento da verdade" (p. 110), vale dizer, a procura pela verdade, o que tem a ver com as "descrições aproximadas" de Fritjof Capra, segundo as quais, a nova ciência representa uma "mudança de descrições verdadeiras para descrições aproximadas" (1998, p. 133ss.).
O próximo passo no que levou à ecometodologia da linguística ecossistêmica foi dado, mais de onze anos após as ideias de Löwy, pelo alemão Hans Strohner que, aparentemente, as ignorava. A despeito disso, Strohner é duplamente importante para os objetivos aqui colimados. Primeiro, porque foi ele quem primeiro usou a expressão "linguística ecossistêmica" (ökosystemische Linguistik, ökosystemische Sprachwissenschaft) por escrito, justamente no ensaio a que estou me referindo (STROHNER, 1996), o que faz dele o iniciador dessa vertente da ecolinguística, seguindo seu colega na Universidade de Bielefeld, Peter Finke, e os discípulo deste, Wilhelm Trampe. Segundo, porque ele foi o primeiro a falar explicitamente em metodologia no seio da própria ecolinguística.
O ensaio Strohner (1996) porta o título de "Die neue Systemlinguistik: Zu einer ökosystemischen Sprachwissenschaft" (A nova linguística do sistema: por uma linguística ecossistêmica). A seção 3 desse ensaio se intitula justamente "Methodologie". O autor começa dizendo que "ao lado da teoria, a metodologia é o segundo pilar de uma ciência". Em sua opinião, "mais do que no âmbito da teoria, o destino futuro da ecolinguística se mostrará no da metodologia". Por isso, "uma linguística ecossistêmica tem a oportunidade de desenvolver uma metodologia que envolva uma solução cooperativa de problemas de modo mais adequado do que a metodologia da linguística estruturalista ou de uma linguística funcionalista ingênua" (p. 56).
Strohner diz que o método proposto contém três passos, que ele descreve pormenorizadamente: (1) a empiria produtora de hipóteses (hypothesenerzeugende Empirie), (2) a modelização teórica, (3) a empiria comprovadora de hipóteses (hypothesenüberprüfende Empirie). Isso antecipa o ciclo dialético da ecometodologia apresentado mais abaixo. O autor encerra a seção sobre metodologia afirmando que mesmo quando o investigador estiver tratando de "questões específicas" elas devem ser encaradas como "parte necessária da metodologia integrativa da linguística ecossistêmica" (p. 57).
Quem expôs a ecometodologia quase nos termos da linguística ecossistêmica foi o ecolinguista britânico Mark Garner, que, também ele, não menciona nenhum dos dois autores que refletiram sobre o assunto antes dele (GARNER, 2004). Como a ecometodologia linguístico-ecossistêmica é quase idêntica à desse autor, eu falarei dela na seção 5 abaixo.  
O ecolinguista australiano Joshua Nash dedica a seção "4: Theories, methods and techniques" de sua tese de doutorado, sobretudo a subseção 4.3, à questão da metodologia (NASH, 2011). Albuquerque (2015, p. 136) apresenta uma síntese da proposta desse autor, mostrando que "sua contribuição maior para a metodologia da ecolinguística foi a de elaborar duas propostas de metodologia importantes, são elas: o trabalho de campo ecolinguístico e o minimalismo empírico". O primeiro aspecto "leva em consideração a relação entre a comunidade, os informantes, o pesquisador", com este agindo como se pertencesse à comunidade. Mais ou menos como os antropólogos que vivem anos a fio nas comunidades indígenas cuja cultura vão investigar. Quanto ao minimalismo empírico, "consiste na escolha de um objeto de estudo reduzido por parte do pesquisador para que possa ser melhor estudada a maior parte das inter-relações que ocorrem dentro do ecossistema escolhido para investigação". Por fim, acrescenta Albuquerque, para Nash "cada ecologia é única" (p. 138). Como aconteceu com Strohner e Garner, tampouco Nash menciona as reflexões anteriores que eu menciono no presente artigo.  
As primeiras reflexões sobre metodologia no âmbito da ecolinguística brasileira -- linguística ecossistêmica -- foram expostas em Couto (2013c, p. 289-291), em que a própria palavra 'ecometodologia' foi sugerida pela primeira vez. Partindo do pressuposto de que a ecolinguística é uma nova maneira de se encararem os fenômenos da linguagem, ou seja, que adota a visão ecológica de mundo, pode-se considerá-la como uma plataforma a partir da qual se pode estudar todo e qualquer fenômeno da linguagem. Salienta-se que as diversas teorias parcelares são como janelas que permitem ver um restrito domínio do objeto de estudo, com o que ele pode ser estudado em suas minúcias. A ecometodologia é vista como o ponto de vista da cumeeira da casa, ou o topo da montanha de Löwy, de onde se pode ter uma visão do todo (holismo).
Em Couto (2013a), temos dois pequenos capítulos (p. 115-123) dedicados à medodologia na ecolinguística, inclusive citando os três precursores (Löwy, Nash, Garner). Há um detalhamento maior de como proceder para analisar minúcias de determinado setor. Essas propostas inicias são retomadas sem grandes acréscimos em dois outros ensaios ulteriores. Em Couto (2016b) temos nova tentativa de mostrar como conciliar a visão englobante com o estudo de dados finos de domínios específicos dos fenômenos da linguagem. No ensaio Couto (2017b), por fim, há uma seção intitulada "Holism and multimethodology", em que se apresenta o método da focalização (focussing method) de Garner. Esse método representa uma atualização e aperfeiçoamento da proposta inicial de Michael Löwy.
Atualmente, já existem dois ensaios dedicados exclusivamente à metodologia na ecolinguística produzidos por membros do eixo Brasília-Goiânia, isto é, os já mencionados Albuquerque (2015) e Silva (2015). O primeiro deles é o que mais se aproxima da presente proposta. Também ele apresenta um pequeno histórico da ecometodologia, falando dos principais precursores, exceto Löwy, que pode ser considerado o primeiro. Quanto a Silva (2015), é de caráter mais filosófico. Enfatiza a ideia de que a pesquisa em ecolinguística deve partir do ecossistema integral da língua (ex-ecologia fundamental da língua), mas dissecá-lo em seus componentes natural, mental e social, mediante as inter-relações que sempre existem entre eles. Ele exemplifica com uma "mexerica de três gomos": pode-se estudar um gomo específico, mas sem esquecer que ele só faz sentido em suas inter-relações com os outros dois e com o todo da mexerica de que fazem parte. Por fim, distingue a metodologia de coleta e a metodologia de análise dos dados, outra questão que merece ser investigada, mas que, infelizmente não será abordada aqui.

4. A medotologia em outras eco-ciências
Comecemos pela psicologia ambiental, pelo motivo de a psicologia em geral ter sido uma das primeiras a adotar uma postura que se poderia chamar de ecológica. Poderíamos recuar pelo menos aos gestaltistas e, entre eles, Kurt Lewin (1890-1947). Lewin é um dos inspiradores do tripé do ecossistema linguístico, mesmo sem mencionar a ecologia, termo que não era comum em sua época.
No caso específico da psicologia ambiental, começo com a pesquisa de Hartmut Günther, da Universidade de Brasília. De acordo com esse pesquisador, "ao menos no presente, não há teoria e/ou método que, por si só, seja capaz de explicar a complexidade do comportamento humano". Por isso, continua, "na medida em que os resultados baseados em diferentes perspectivas teóricas e metodológicas complementem uns aos outros, poderemos eventualmente adquirir uma Gestalt mais completa da natureza da psicologia humana". Isso porque, "dadas as múltiplas interfaces da Psicologia Ambiental apontadas acima, tanto dentro quando além da psicologia, o multilateralismo teórico e metodológico é apenas uma consequência lógica, necessária". Por isso, "uma consequência prática deste viés é um interesse predominante em soluções de problemas práticos antes do que o ganho em campos de batalha sobre teorias, não sem esquecer, contudo, a advertência de Lewin de que “nada é mais prático do que uma boa teoria” (GÜNTHER, 2005, p. 180).
Não param por aí as observações de Günther que são semelhantes ao que propõe a linguística ecossistêmica. Na mesma página, ele diz que a psicologia ambiental tem um “referencial necessariamente interdisciplinar”, o que "implica não somente em uma aceitação e uso de múltiplas abordagens teóricas e metodológicas, mas em uma abordagem multilateral para lidar com as relações entre campos de estudo". Como se vê, ao lado de multidisciplinaridade, o autor fala também em multilateralidade, que sugere a necessidade de se encarar o fenômeno observado em todas as direções, vale dizer, como inserido em uma rede de interações.
Uma outra ideia interessante encontrável neste ensaio é a do “método como uma consequência da questão” (p. 181). Isso coincide com minhas primeiras palavras sobre ecologia. Em Couto (2013a, p. 119), está relatada a resposta a uma pergunta de Joshua Nash sobre como é a metodologia ecolinguística. "Sem pensar muito, respondi que ela é dada pelo objeto de estudo", embora logo em seguida eu tenha ficado com medo de ter dito uma asneira. Os argumentos de Günther me trouxeram um certo alívio. Eles mostram que eu não fui o único a pensar assim. Metodologia sugerida pelo objeto a ser investigado parece uma atitude inevitável na multimetodologia.
Por fim, Günther asseverou que é preciso "pensar cientificamente e comportar-se praticamente” (p. 181), o que, de certa forma, é uma paráfrase do conhecido dito “pense globalmente, aja localmente", surgido entre os ambientalistas. Para mais argumentos no mesmo sentido, pode-se consultar Günther & Rozestraten (2005).
Vejamos o que se disse em termos de metodologia na sociologia ambiental. Em Dunlap & Catton (1979) e Catton & Dunlap (1980), o que vemos é apenas um histórico desta orientação na sociologia, sua tentativa de se afirmar como disciplina acadêmica. Eles criticam a posição de Émile Durkheim de que fatos sociais viriam de fatos sociais, mostrando que pode haver influência do meio no surgimento deles, embora o contrário também ocorra. Eles condenam o paradigma do exceptionalismo humano e defendem o novo paradigma ambiental. Um sociólogo que se aproxima do assunto é Stevens (2012), sugerindo que a ecossociologia pode se valer dos achados da ecopsicologia, logo, usar sua metodologia pelo menos em parte. Enfim, pode até ser que os sociólogos ambientais não defendam a multidisciplinaridade explicitamente, mas ela fica implícita na aceitação do modelo do ecossistema biológico, com todas as suas características, como a abertura, a visão abrangente (holística) etc.
Na antropologia ecológica ou ecoantropologia, tem prevalecido o método da observação participante. Esse método frequentemente se combina com o etnográfico, lembrando a proposta de Joshua Nash mencionada acima. Afinal, para se conhecer a cultura de determinado grupo étnico, o pesquisador geralmente mora por um longo período no seio desse grupo, participando do dia a dia de seus membros, adquirindo uma visão de conjunto de toda sua vida e cultura. Com isso, a metodologia acaba sendo multimetodológica (NEVES, 1996). Aliás, a antropologia é a ciência social que apresenta mais afinidades com a ecolinguística.

5. A ecometodologia linguístico-ecossistêmica
A ecometodologia da linguística ecossistêmica é basicamente a proposta de Löwy e Garner, combinadas. O primeiro usou a metáfora do topo da montanha, por oposição à visão de quem está intimamente ligado a um lado específico do objeto investigado. O segundo, mostrou como esse procedimento pode ser posto em prática no momento de se estudar um fenômeno fino tanto da exoecologia quanto da endoecologia linguística. Garner acha que "o método analítico e reducionista tradicional não é apropriado para o estudo dos fenômenos da linguagem de um ponto de vista ecológico". Partindo dessa visão de mundo, ele sugere o método da focalização, que ele descreve da seguinte forma: o "conceito de focalização implica prestar bastante atenção a um problema ou fenômeno contra o pano de fundo do contexto em que ele ocorre. Em um filme, a câmera pode focalizar, por exemplo, a face de um ator a fim de chamar a atenção para uma expressão particular, mas, durante o tempo em que os outros elementos da cena estiverem fora de foco, estão ainda lá como um pano de fundo essencial para entender a expressão. Mesmo se a face toma conta de toda a tela temporariamente, excluindo todo o resto, a câmera pode retroceder a fim de abarcar o contexto maior" (Garner 2004, p. 202).
A descrição do método da focalização é a melhor exposição de como deve proceder quem pratica linguística ecossistêmica no momento em que precisa estudar determinado fenômeno muito específico da língua, como a nasalidade vocálica em português, as orações relativas, as construções clivadas etc. Praticar uma visão de mundo holística não significa que o cientista seja onisciente, que possa investigar todo e qualquer aspecto de seu objeto. Quando o linguista ecossistêmico precisa estudar um domínio específico da perspectiva de determinada janela (sintaxe, morfologia, fonologia; contato de línguas, análise de discursos etc.) solicita a ajuda de um especialista e avalia os resultados obtidos a partir da visão da cumeeira (como mostrou Löwy) que é a da visão ecológica de mundo.

Por tudo que acaba de ser dito, nota-se que a ecometodologia é inicialmente, e preferencialmente, de base empírica, porém também dialética. Ela começa preferencialmente pelo objeto de estudo (objeto que já estava sendo procurado por alguma perspectiva teórica) e inclui um diálogo com o modelo teórico (modelo teórico escolhido devido ao objeto que o investigador tinha em mira). Enfim, contrariamente às metodologias tradicionais, a ecometodologia pode partir tanto do objeto quanto do ponto de vista teórico, pois sempre os fará dialogar entre si. O que é mais, de qualquer "lado" que partir, terá sempre em mira o outro no momento da partida. Não separa teoria de empiria, nem vai de uma à outra de modo mecanicamente unidirecional, como já sugerira Garner.
Seria interessante lembrar que a ecometodologia da linguística ecossistêmica é muito semelhante à de Karl Marx exposta no "Posfácio à segunda edição de O capital" (1873). De acordo com ele, que distingue "modo de exposição" de "modo de investigação", "a investigação tem de se apropriar da matéria [Stoff] em seus detalhes, analisar suas diferentes formas de desenvolvimento e rastrear seu nexo interno. Somente depois de consumado tal trabalho é que se pode expor adequadamente (129) o movimento real. Se isso é realizado com sucesso, e se a vida da matéria é agora refletida idealmente, o observador pode ter a impressão de se encontrar diante de uma construção a priori” (p. 128-129 da edição brasileira de Boitempo Editorial). A propósito, vale a pena ler a o texto de José Arthur Giannotti ("Considerações sobre o método"), incluso como uma das apresentações dessa edição.
Como tentei mostrar em Couto (2017b), algumas tendências da ecolinguística são ecológicas sobretudo pelo objeto de estudo (ontologia), no caso, questões do ambientalismo. Elas tratam basicamente de textos-discursos de cunho ambiental, antiambiental ou pseudoambiental, que seriam objetos mais apropriados para a linguística ambiental (COUTO, 2017a). Outras são ecológicas pela teoria (epistemologia), mediante o uso metafórico de conceitos ecológicos. A ecolinguística crítica, praticada por alguns estudiosos europeus, chega a apresentar as duas características. A linguística ecossistêmica, por seu turno, é ecológica epistemológica, ontológica e metodologicamente. Com efeito, a metodologia das ciências tradicionais em geral vai da teoria para o objeto de estudo, ou do objeto para a teoria, de modo unidirecional. Na linguística ecossistêmica pode-se ir nas duas direções, procedimento típico da visão ecológica de mundo, compatível inclusive com o multilateralismo de Günther. A grande diferença relativamente à tradição é que de qualquer perspectiva que se parta, vai-se na direção da outra, num procedimento dialético. Enfim, a metodologia não precisa ser dada só pela teoria. O objeto de investigação pode também sugerir qual é a metodologia mais adequada a ser utilizada em determinada investigação. Essa segunda postura é a preferida pela linguística ecossistêmica, fazendo-a dialogar com a outra.

A linguística ecossistêmica tem uma metodologia muito clara que, no fundo, pode adotar a metodologia de qualquer uma das demais ciências sociais e, talvez, as da natureza e da ciência em geral, uma vez que ela é multimetodológica, por ser multidisciplimar. Essa ecometodologia decorre naturalmente da visão ecológica de mundo. Vale dizer, ela é pura e simplesmente uma sistematização do que fizeram os principais precursores comentados acima, quais sejam, Löwy, Strohner e Garner. A proposta de Joshua Nash também é muito interessante, inteiramente válida e está perfeitamente em sintonia com a ecometodologia da linguística ecossistêmica. Ela apenas não tocou na questão da dialética entre visão holística (da totalidade de Löwy) e estudo de dados finos de domínios específicos de determinado fenômeno da língua. Nash parece se ater à visão da janela, não mencionando a da cumeeira.


6. Exemplos de aplicação da ecometodologia
Vimos que a ecometodologia é decididamente multimetodológica. Isso implica ser multiteórica, pois praticamente todos os modelos teóricos têm seu modo de tratar os dados, quer dizer a todos eles está associada, explícita ou implicitamente, uma metodologia de como devem ser aplicados. Assim sendo, gostaria de dar alguns exemplos de investigações especializadas que foram utilizadas para conclusões gerais, de caráter abrangente. Primeiro, temos a pesquisa do vocabulário da linguagem dos ciganos calon do norte de Goiás feita por Melo (2005). Partindo de algumas poucas sobrevivências do léxico romani original, ele pôde ter alguma ideia pelo menos de sua morfologia. A pesquisa de Couto (2013b) sobre um pequeno grupo de ciganos kalderash de Aparecida de Goiânia (GO) constatou que eles formavam uma comunidade de fala específica, em um bairro da cidade. Notou também que, embora ainda mantenham grande parte da sua variedade de romani (romanês), ela se encontra em obsolescência. Inclusive a cultura está se deteriorando, mesmo porque eles se tornaram evangélicos, com o que muitos de seus hábitos tradicionais passaram a ser vistos como algo "errado", "pecaminoso" etc.
Um exemplo mais interessante de uso de dados obtidos em uma pesquisa de dados bastante específicos para conclusões gerais é o de Mane (2001). Ele fez uma descrição fonológica das variedades linguísticas da Guiné-Bissau conhecidas como mancanha, manjaco e pepel, tradicionalmente tidas como três línguas distintas. Mane constou que as três têm basicamente a mesma fonologia. Isso foi um argumento para o autor afirmar que se tratava de três variedades ("dialetos") da mesma língua. Vale dizer, uma pesquisa bastante especializada forneceu argumentos para se discutir a polêmica questão sobre qual é a diferença entre língua e dialeto.
Todos esses exemplos mostram casos em que o estudioso usou um modelo teórico específico, foi a campo, coletou dados e os analisou tecnicamente de acordo com os procedimentos previstos na aplicação do próprio modelo. De posse dos dados analisados, o investigador avaliou-os de uma perspectiva mais ampla. Nos três casos, usaram-se teorias e metodologias indutivistas, que permitiram tirar conclusões mais amplas.  O procedimento de Pike comentado acima pode ser tido como outro exemplo: partindo de dados fonéticos, lidando com produção sonora concreta pelos falantes das línguas, chegou-se a um sistema fonológico, de interesse para a teoria fonológica.


7. Observações finais
Como disse Hans Strohner, há íntimas relações entre teoria e metodologia. Na verdade, uma não vive sem a outra; nem em casos extremos como o de Chomsky, que disse que não tinha "método/metodologia". O praticante de gramática gerativa precisa ter, como o praticante de qualquer modelo teórico, algum modo de coletar, analisar e interpretar os dados com que trabalha. Por exemplo, os próprios 'testes de aceitabilidade' das versões iniciais dessa teoria já eram um tipo de metodologia de ação, de aproximar dados e teoria. Como sabemos, e creio ter ficado claro em toda a argumentação acima, a metodologia não passa de um modo de ligar teoria e dados. 
Vimos que as teorias altamente especializadas, como a teoria fonêmica do estruturalismo americano, podem e devem usar uma unimetodologia bastante específica. Dada a orientação filosófica em que se baseia sua fundamentação epistemológica, não é possível praticar a multimetodologia. O procedimento de Pike mencionado acima é um exemplo, sobretudo se forem acrescentadas as "regras de identificação de fonema" e todo o procedimento de sua aplicação, muito bem explicitados no livro Phonemics (1947) do autor. Algo parecido deve ser válido para qualquer outro modelo teórico especializado.
Nas disciplinas que perfilham a visão ecológica de mundo, bem como todas as que procuram encarar seu objeto de modo holístico, as coisas não são tão lineares assim. Como disse Günther para a psicologia ambiental, nas ciências "holísticas", como a linguística ecossistêmica, temos o “método como uma consequência da questão” de pesquisa, como consequência do objeto a ser investigado. Enfim, ainda seguindo esse autor, podemos dizer que a ecometodologia da linguística ecossistêmica é multimetodológica e, por encarar seu objeto como formando uma rede e sendo parte de uma rede maior, qualquer "ponto" das interconexões sobre o qual focalizarmos a atenção se relacionará com diversos outros de modo multilateral.  

Referências
ALBUQUERQUE, Davi Borges. Palavras iniciais sobre metodologia em ecolinguística. Via litterae v. 7, n.  1, 2015, p. 131-142.
BENSUSSAN, Gérard. 1982. Lyssenkisme. In: Dictionnaire critique du marxisme. Paris: Presses Universitaires de France, p. 536.
CAPRA, Fritjof. Sabedoria incomum. São Paulo: Cultriz, 10ed., 1995.
_______. Pertencendo ao universo. São Paulo: Cultriz, 10ed, 1994.
CATTON JR., William R. & DUNLAP, Riley E. A new ecological paradigma for post-exuberant sociology. American behavioral scientist v. 24, n. 1, 1980, p. 15-47.
CHOMSKY, Noam. Language and problems of knowledge: The Managua Lectures. Cambridge: The MIT Press, 1988.
COUTO, Elza K. N. N. do. Ecolinguística: Um diálogo com Hildo Honório do Couto. Campinas: Pontes, 2013a.
_______. O meio ambiente dos ciganos de Aparecida de Goiânia (GO). Cadernos de linguagem e sociedade v. 13, n. 1, p. 213-236, 2013b.
COUTO, Hildo Honório do. O que vem a ser ecolinguística, afinal? Cadernos de linguagem e sociedade v. 14, n. 1, p. 235-313, 2013c.
_______. Ecological approaches in linguistics: an historical overview. Language sciences 41, 2014, p. 122-128.
_______. Comunidade de fala revisitada. Ecolinguística: revista brasileira de ecologia e linguagem (ECO-REBEL) v. 2, n. 12, 2016a, p. 47-72. Disponível em:
http://periodicos.unb.br/index.php/erbel/article/view/20035/14225 (acesso: 25/01/2017).
_______. Ecolinguística. In: MOLLICA, Cecília & FERRAREZI JR., Celso (orgs.). Sociolinguística, sociolinguísticas. São Paulo: Contexto, 2016b, p. 87-95.
_______. Linguística ambiental. Disponível em:
http://meioambienteelinguagem.blogspot.com.br/2017/03/linguistica-ambiental.html
(acesso: 12/07/21-17), 2017a.
_______. 2017b. Ecosystemic linguistics. In: FILL, Alwin & PENZ, Hermine (orgs.). Routledge handbook of ecolinguistics. Londres: Routledge, seção I, B 2017b.
DUNLAP, Riley E. & CATTON JR., William R. Environmental sociology. Annual review of sociology 5, 1979, p. 243-273.
GARNER, Mark. Language: An ecological view. Berna: Peter Lang, 2004.
GÜNTHER, Hartmut. 2005. A psicologia ambiental no campo interdisciplinar de conhecimento. Psicologia USP v. 16, n. 1/2, p. 179-183.
_______; ROZESTRATEN, Reinier J. A. 2005. Psicologia ambiental: algumas considerações sobre sua área de pesquisa e ensino. Textos de Psicologia Ambiental n. 10, Lab. Psic. Amb., UnB.
LÖWY, Michael. Ideologias e ciência social: Elementos para uma análise marxista. São Paulo: Cortez Editora, 1985, p. 81.
MANE, Djiby. Djiby Mane. Manjaco, mancanha e papel: três línguas ou três dialetos de uma única língua? Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2001.
MELO, Fábio José D. de. O calon dos ciganos do nordeste de Goiás: uma língua obsolescente. Dissertação de mestrado, Universidade de Brasília, 2005.
NASH, Jushua. Insular toponymies: Pristine place-naming on Norfolk Island, South Pacific and Dudley Peninsula, Kangaroo Island, South Australia. Tese de Doutorado, Universidade de Adelaide, Austrália, 2011.
NEVES, Walter. Antropologia ecológica. São Paulo: Cortez Editora, 1996.
ORTEGA Y GASSET, José. Origem e epílogo da filosofia. Rio de Janeiro: Livro Ibero-Americano, 1963. 
SILVA, Samuel Sousa. Por uma metodologia própria para a ecolinguística e a ADE. Via litterae v. 7, n. 1, p. 143-155, 2015.
SOUSA SANTOS, Boaventura. Um discurso sobre as ciências. Porto: Edições Afrontamento, 8a ed., 1996.
STEVENS, Paul. Towards an ecosociology. Sociology v. 46, n. 4, 2012, p. 579-595. 
STROHNER, Hans. Die neue Systemlinguistik: Zu einer ökosystemischen Sprachwissenschaft. In: Fill, Alwin. Sprachökologie und Ökolinguistik. Tübingen: Stauffenburg Verlag, 1996, pp. 49-58.

[Este texto é resultado de uma palestra proferida no III Encontro Brasileiro de Imaginário e Ecolinguística, realizado na Universidade Estadual de Feira de Santana, Feira de Santana (BA), em 5-6 de setembro de 2017. Site do evento: https://encontrobime.wordpress.com ].


segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ecossistema cultural


terça-feira, 28 de junho de 2016

(Hildo Honório do Couto, Universidade de Brasília)

As línguas formam um grande ecossistema cultural (Gilberto Gil)

1. Introdução
A afirmação de Gilberto Gil não é necessariamente verdadeira, mas aponta na direção certa. Isso porque o grande cantor e ex-Ministro da Cultura associa "língua" a "ecossistema cultural". Gil só não acertou ao deixar implícito que um mero conjunto de línguas, ou o conjunto de todas elas, formaria um "ecossistema cultural". Na verdade, os ecossistemas culturais existem e estão associados a língua, mas no sentido de esta fazer parte daqueles. O ecossistema cultural compreende, em seu interior, o ecossistema linguístico. Pode até conter mais de um ecossistema linguístico. Isto porque a língua é parte da cultura, como os antropólogos vêm defendendo há várias décadas.
É bem verdade que hoje em dia há uma tendência para se falar em "ecossistema" de tudo (espiritual, virtual etc.), de certa forma banalizando o conceito. No entanto, o conceito de ecossistema cultural faz sentido. Tanto que ele está implícito e às vezes claramente explícito em muitos ensaios antropológicos, uma vez que a antropologia é a ciência que mais tem a ver com a questão da cultura. Por exemplo, Lewis Morgan (1818-1881) e Edward Tylor (1832-1917) associaram língua e cultura já no século XIX. Aliás, a definição de Tylor vem sendo repetida até hoje. O antropólogo Franz Boas (1858-1942) não só associou as duas como chegou a escrever ensaios sobre línguas indígenas norte-americanas. Seu discípulo Edward Sapir (1884-1939) foi mais longe, tornando-se uma espécie de dublé de antropólogo e linguista. De fato, ele é conhecido, respeitado e frequentemente citado em ambas áreas. Foi até mesmo o primeiro a escrever um ensaio dedicado à relação entre língua e meio ambiente (Sapir 2016).
Segundo Neves (1996), a antropologia ecológica começou com Leslie White (1900-1975), que restaurou o pensamento evolutivo na antropologia. Em seguida Julian Steward (1902-1972) introduziu o método da ecologia cultural a fim de "resgatar dentro da Antropologia o conceito de meio ambiente como fator gerador de cultura" (p. 34), contrariamente à ideia tradicional de que "cultura vem de cultura". Por fim, Andrew Vayda e Roy Rappaport opuseram a ecologia humana à ecologia cultural de Steward, introduzindo o conceito de ecossistema na antropologia, com enfoque na população.
Do lado linguístico, podemos citar Kenneth L. Pike, que tem uma visão ampla da língua, inserindo-a em um contexto antropológico mais amplo, chegando mesmo a se aproximar do que hoje se chama de ecolinguística. Foi ele que propôs a distinção entre visão 'ética' e 'êmica', dos fenômenos linguísticos e culturais, hoje moeda corrente entre os antropólogos, partindo dos conceitos linguísticos de 'fonética' e 'fonêmica', sendo esta o nome que o estruturalismo americano dava ao que na Europa era chamado de fonologia. A primeira é a perspectiva de quem está de fora, enquanto que a segunda é a de quem está dentro e conhece a estrutura e o funcionamento da cultura. Infelizmente, porém, muitos antropólogos atuais vivem anos a fio junto a um grupo indígena, assimila sua cultura, e sua língua, espera-se, mas não dão um exemplo sequer de dado linguístico. É como se a língua não fosse parte da cultura, e a mais importante.

2. Ecossistema biológico e ecossistema linguístico
Sabemos que a variante da ecolinguística chamada linguística ecossistêmica tem esse nome por partir do ecossistema, que é o conceito central da ecologia geral ou macroecologia. Na ecologia biológica temos, obviamente, o ecossistema biológico, que consta de uma população (P) de organismos vivos (animais ou vegetais), seu habitat ou território (T) e as interações (I), tanto interação organismo-mundo quanto interações organismo-organismo. A totalidade de P, T mais I forma o ecossistema biológico, no interior do qual T é o meio ambiente de P. Veremos logo a seguir que meio ambiente da língua é um tanto diferente, pois ele equivale ao que seria o meio ambiente de I. Portanto, o 'meio ambiente da língua' é o locus das interações que constituem a língua (natural, mental, social). Isso equivale a dizer que o 'meio ambiente' de I (interações ecológicas) é o lugar em que essas interações se dão. O ecossistema biológico pode ser representado como se vê na figura 1.

P
/   \
I-----T
Ecossistema Biológico
Fig. 1

No ecossistema linguístico temos exatamente os mesmos componentes, motivo pelo qual a variante brasileira da ecolinguística é chamada de linguística ecossistêmica, também conhecida como ecologia linguística. Isso quer dizer que se trata de uma disciplina que está em pé de igualdade com a ecologia biológica, embora inclua também a ecologia social (p. ex., a ecologia humana, a ecologia social, a sociologia ambiental etc.) e a filosófica (p. ex., a ecologia profunda). Se na ecologia biológica o conceito central é o de ecossistema biológico, na ecologia linguística (linguística ecossistêmica) o conceito central é o de ecossistema linguístico. Ele consta de uma população ou povo (P) que só o é por seus membros conviverem em um lugar, que é seu meio ambiente ou território (T). Por conviverem nesse território, interagem (I) entre si e com o ambiente. A única diferença entre o ecossistema linguístico e o biológico, se é que se pode dizer que se trata de diferença, é que no ecossistema linguístico as interações recebem o nome de língua (L), de modo que o ecossistema linguístico é a totalidade PTL (L=I). Esse ecossistema tem sido representado, em sua forma geral, como se vê na figura 2. É claro que esse ecossistema contém três outros em seu interior, ou seja, o ecossistema natural, o mental e o social, como se pode ver na postagem "Linguística ecossistêmica", entre outras, deste mesmo blog.

P
/    \
L-----T
Ecossistema Linguístico
Fig. 2

Aqui as interações são também de dois tipos: interação pessoa-pessoa, equivalente à interação organismo-organismo, e interação pessoa-mundo, equivalente a interação organismo-mundo. Linguístico-ecossistemicamente, as interações pessoa-pessoa são chamadas de comunicação e as interações pessoa-mundo são conhecidas como referência, nomeação, denotação ou significação.
Assim como a propriedade definidora do ecossistema biológico são as interações, não os organismos nem seu habitat em si, a propriedade central do ecossistema linguísico são as interações linguísticas, a comunicação, ou melhor, a interação comunicativa. Esta, por sua vez, insere-se em uma ecologia da interação comunicativa (EIC). Sempre que dois membros da comunidade linguística, outro nome para ecossistema linguístico, se engajam em uma interação comunicativa produzem uma sequência de atos de interação comunicativa, cujo fluxo é chamado de diálogo ou fluxo interlocucional. Em cada ato de interação comunicativa (AIC) os interlocutores se comunicam referindo-se a algo exterior à linguagem. Por outro lado, só se referem a algo comunicando-se. Os dois aspectos estão inextricavelmente interligados.

3. O que vem a ser ecossistema cultural?
Antes de falar de ecossistema cultural é importante averiguar o que vem a ser cultura. A palavra é derivada do verbo latino cólere (cultivar, plantar), via particípio passado cultus. Até hoje no Brasil rural se ouve a expressão "terra de cultura", para terra boa para plantar. Marco Túlio Cícero (106–43 a.C), usando a metáfora agrícola, falou em cultura animi, algo como "cultura do espírito", com a intenção de distinguir a parte espiritual dos humanos como algo "superior" à mera materialidade, ideia que persiste até hoje em algumas acepções da palavra 'cultura'. Diversos antropólogos têm tentado definir o termo desde pelo menos final do século XIX, como Lewis H. Morgan e Edward B. Tylor. Tylor disse em seu clássico Primitive culture (1871) que cultura é "a complexa totalidade que inclui conhecimento, crenças, artes, moralidade, lei, costumes e qualquer outra capacidade ou hábito adquirido pelo homem como membro de uma sociedade". Portanto, para ele "cultura" está exclusivamente no nível social/espiritual. Outros autores incluíram a "cultura material", sobretudo quando começaram a fazer pesquisas etnográficas, caso do antropólogo americano Leslie White. A cultura material incluiria a tecnologia, a arquitetura e a arte, entre outras. A definição do dicionário Aurélio, também inclui a dimensão material, como se vê no termo "materiais" da definição de que cultura é "o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade". Para uma visão panorâmica da antropologia cultural, pode-se consultar Stagl (1974).
Para as finalidades do presente ensaio, cultura pode ser tida como tudo que faz parte do acervo de um povo, mas que não pertence exclusivamente à natureza, embora isso não signifique que cultura se oponha a ela. Na verdade, natura existe sem cultura, mas cultura não existe sem natura. Bookchin (1993) diz que a cultura é uma 'segunda natureza', dependente da 'primeira natureza' e sobreposta a ela. Nesse sentido, cultura é de natureza semiótica, sobretudo no sentido da semiótica de Peirce: tudo que se encontra no contexto de determinado povo representa algo para ele. Seus membros podem referir-se a tudo em suas interações comunicativas quotidianas. Essa é a concepção implícita em Eco (1974) e em Couto (1981, 1982, 1999). De certa forma, cultura é constituída de signos (indiciais, icônicos e simbólicos), organizados em códigos, ou seja, cultura é linguagem.
O semioticista estruturalista russo Iuri. M. Lotman analisou a cultura como sistema semiótico em relativo detalhe, usando como exemplo a cultura medieval por oposição á cultura renascentista. Enquanto que a primeira preferia ver no mundo o que tinha valor semiótico, de signo, a segunda enfatizava os realia. Na Idade Média, o valor dos humanos se resumia ao papel de reflexos da imagem de Deus, como parte dele, enquanto que no Renascimento o que importava eram os humanos como seres de carne e osso, não como imagens (signos) de Deus. Para Lotman, a cultura é um conjunto de códigos (linguagens), em que a língua é o código principal, ou seja, para ele a cultura é verbocêntrica. Para o que aqui interessa, é importante ressaltar que na proposta do autor, fica implícito que toda mensagem (resultado de atos de interação comunicativa) pode conter ingredientes dos mais variados códigos da cultura (Lotman 1979).  
Com isso, podemos tentar dar uma conceituação de ecossistema cultural. Trata-se dados signos e sistemas de signos de determinada comunidade, ou seja, tudo que é compartilhado por seus membros, tanto no nível material como no imaterial. Por ser compartilhado, pode eventualmente ser usado em atos de interação comunicativa, e o são. O primeiro de todos os ingredientes da cultura é a língua. Mas aí entram também os gestos, as crenças, os usos e costumes, os artefatos, aí inclusas as casas, os monumentos, as ferramentas e muito mais. Eco (1974) apresenta um conspecto relativamente detalhado do ecossistema cultural, embora sem usar o termo. Como se pode ver na figura 3, a representação do ecossistema cultural é homóloga à do ecossistema linguístico apresentado acima.



P
/    \
C-----T
Ecossistema Cultural
Fig. 3

Esse tripé deve ser lido da seguinte forma: para que haja uma cultura (C) é necessário que preexista um povo (P) convivendo em determinado lugar, que é seu território (T). O C no caso, ou seja, a cultura, seria tudo que P fez, faz e fará. No "fez" está o acervo guardado na memória e que garante a identidade do grupo. No "faz" estão os padrões de ação, no como lavram a terra, plantam, colhem, enfim, os modos tradicionais de agir, inclusive de comunicar. Tanto que uma das primeiras definições antropológicas de cultura foi a de que ela é "the ways of a people" (os modos [de se comportar] de um povo"). No "fará" estão os planejamentos e investimentos para o futuro, como a educação dos jovens.
Deixando de lado as definições de cultura e seus componentes pelos antropólogos, desde pelo menos final do século XIX, o ecossistema cultural como um todo vem sendo discutido por autores como Eco (1974), Preziosi (1977), entre muitos outros. No contexto do que viria a ser a linguística ecossistêmica, eu venho incluindo a língua em um contexto cultural mais amplo desde Couto (1981), usando " L" de "linguagem" em geral no lugar de "C" de "cultura". Por esse motivo, língua ficou representada por l1, ao lado dos demais sistemas de signos culturais, ou seja, das demais linguagens, que seriam l2, l3 até ln. Assim, l2, poderia ser o conjunto de regras culturais de comportamento, l3 seria a linguagem do sistema jurídico, l4 corresponderia à linguagem do trânsito e assim por diante. Nesse caso, eu falava em "cultura como um conjunto-universo de códigos" (p. 11-19). Numa publicação do ano seguinte, cultura foi vista como "um sistema de signos" (Couto 1982: 65-91), no contexto da gramática estratificacional, atualmente 'linguística neurocognitiva'. Entre os componentes da cultura, mencionavam-se as estruturas conceptuais, as atividades, os grupos sociais, os papéis e padrões comportamentais, as taxonomias (botânicas, zoológicas, topográficas etc.) e a língua. Em Couto (1999, seção 7.3), o assunto foi retomado no contexto da formação e transformação das línguas pidgins e crioulas, já com um pendor para a ecolinguística.
Como se pôde ver, a cultura foi tomada como uma macrolinguagem, que compreendia a língua, de uma perspectiva semiótica, ou seja, da perspectiva dos signos que formam as diversas linguagens. Daí o uso da palavra 'código', como designação do todo, ou seja, a linguagem, que unifica os diversos grupos de signos culturais em um todo. Foi mostrado que essas linguagens podem ser multissígnicas, ou seja, conter uma quantidade quase imensurável de signos, como a língua, e até unissígnicas, como uma pedrinha que ficava em cima da mesa do professor antigamente, e que podia ser pega por qualquer aluno que desejasse ir ao banheiro, sem pedir licença ao professor. Se a pedrinha não estivesse lá, teoricamente ninguém podia ir ao banheiro. Tratava-se de uma linguagem (código) que constava de um único signo. Entre os dois extremos, temos os mais variados tipos de linguagem/código, compreendendo quantidades as mais variadas de signos.
Podemos encarar o ecossistema cultural de mais de uma perspectiva. De uma delas, podemos dizer que ele consta de cultura imaterial e cultura material. Como o próprio nome já sugere, a cultura material inclui tudo que é de natureza física, como os artefatos, os padrões de construção, os monumentos, as cidades, as esculturas, as roupas, os garfos etc. A cultura imaterial, por seu turno, açambarca tudo que caracteriza determinado povo, mas que não seja de natureza física. É o caso da língua, das tradições, das festividades, dos modos de comportamento etc. De acordo com uma perspectiva que privilegia a língua, temos, por um lado, a língua e, por outro, objetos, fatos ou fenômenos. Os objetos/fatos podem ser (a) naturofatos, (b) artefatos, (c) mentefatos e (d) sociofatos.
Gostaria de salientar que, da perspectiva ecossistêmica aqui adotada, a distinção 'cultura material x cultura imaterial' é interessante uma vez que implica que há um entrelaçamento entre elas. O que é mais, a o termo 'imaterial' é derivado de 'material' mediante a adjunção do prefixo in-. Isso está em sintonia com a tese do filósofo da linguagem e ecolinguista alemão, Peter Finke, e do proponente da ecologia social, Murray Bookchin. De acordo com eles, cultura emerge de natura. Mas, quem comparou explicitamente as inter-relações entre ecossistema cultural e ecossistema linguístico foi Trampe (2002), dando continuidade à proposta original de Finke.
A língua é o componente mais importante da cultura de um povo, abrangendo a maior parte dela, como se pode visualizar na figura 4 abaixo. Os naturofatos associados à cultura de determinada comunidade compreendem tudo que pertence à natureza física, mas que tem algum valor simbólico para seus membros. Um dos casos mais conhecidos é o Monte Fuji, que é um símbolo do Japão, a cem quilômetros de Tóquio. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de informação, ao vê-lo, saberá que está no Japão, pois o monte está nele. O Pão de Açúcar é um símbolo do Rio de Janeiro e, até certo ponto, também do Brasil. O canguru é um símbolo da Austrália. Dizem que os finlandeses têm cerca de sete símbolos nacionais que são seres da natureza. O panda-gigante da China parece ser outro exemplo. Para aplacar a reação dos naturófobos (aqueles que têm horror a associar fenômenos humanos/sociais a fenômenos naturais), podemos recorrer ao signo indicial de Peirce (1972: 115-134). De acordo com ele, o signo indicial (por oposição ao icônico e ao simbólico) se refere à coisa referida por estar naturalmente associado a ela. É o caso do continente pelo conteúdo (como o Monte Fuji e o Pão de Açúcar), e vice-versa, da parte pelo todo ("braço" por "trabalhador"), e vice-versa, da seta indicando determinada direção etc. Talvez seja um exagero incluir aqui os sete presumíveis naturofatos finlandeses, pois naturofato precisaria ser reconhecido inclusive pelos não finlandeses.
Entre os artefatos mais conhecidos de algumas culturas do mundo poderíamos mencionar, em um nível macro, a Muralha da China, a Torre Eiffel, a Torre de Pisa, o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade. No caso específico da cultura brasileira, temos ainda artefatos culturais como a cuíca, o berimbau, as estátuas em geral, os quadros de pintura, o formato das casas, a vestimenta, enfim, praticamente tudo que pertence ao que foi chamado de cultura material. Os mentefatos são constituídos por tudo que for de caráter psíquico nos indivíduos de determinado povo. Eu não tenho muita coisa dizer sobre o assunto. No entanto, fenômenos como sensação, percepção/percepto, imaginação, memória, cognição/conceito e outros parece pertencerem a esse domínio, uma vez que todos eles são de natureza intelectual. Há também os de natureza emocional, como prazer, dor, excitação, amor/ódio, emoção, stress/depressão, irritação, alegria etc., além dos de natureza volitiva como vontade, desejo, pulsão, enfim, as volições e nolições.
Os sociofatos, por seu turno, constituem a esmagadora maioria dos dados da cultura, sendo que para alguns antropólogos ela seria constituída só de sociofatos. De qualquer forma, gostaria de salientar as regras culturais (RC) ou comportamentais. Elas podem complementar as regras interacionais da linguística ecossistêmica, logo, ser usadas nos atos de interação comunicativa. Na verdade, todo e qualquer elemento da cultura de um povo pode ser usado na interlocução entre quaisquer dois de seus membros. Apesar de algumas das primeiras definições de cultura incluírem apenas os sociofatos, acabamos de ver que não podemos deixar de lato os naturofatos e os mentefatos. Podemos representar sinoticamente os componentes da cultura da seguinte forma:

Cultura:
1) Língua: a) regras interacionais, b) regras sistêmicas.
2) Objetos/fatos: a) naturofatos, b) artefatos, c) mentefatos, d) sociofatos.

É importante ressaltar que o ecossistema discutido em Couto (2016) constituía, juntamente com as comunidades vizinhas, o ecossistema cultural rural. Ele se opunha ao ecossistema cultural urbano, vigente nas cidades. Naquela época, de cerca de 1941/2 a 1957, as regiões rurais brasileiras tinham muito pouco contato com as cidades, motivo pelo qual sua língua e cultura eram bastante diferentes das respectivas variedades urbanas. Cada polo dessa oposição tinha alguma ideia do que era a outra, mas apenas uma vaga ideia. Eram mundos diferentes. O ecossistema cultural rural é centrípeto, voltado para si mesmo, pois a lide diária pela sobrevivência não dá tempo às pessoas para grandes elucubrações teóricas. O ecossistema urbano, ao contrário, é centrífugo, com habitantes de cada cidade voltados para a cidade maior (Rio de Janeiro, São Paulo etc.), e as elites desta voltadas para a Europa e os Estados Unidos. Isso a despeito de grande parte dos residentes nas cidades serem de origem rural.
Pelo menos aparentemente, não há um "ecossistema cultural estatal", para manter o paralelo com as variedades da língua chamadas de dialeto estatal, dialeto urbano e dialetos rurais naquele ensaio. Isso mostra mais uma vez que a língua estatal é uma realidade artificial, abstrata, induzida das realidades linguísticas concretas. Não existe um ecossistema estatal que a englobe e lhe dê identidade.
Repitamos, tudo que faz parte do ecossistema cultural pode ser usado para o entendimento nos atos de interação comunicativa. No caso da comunidade de fala recém-mencionada, elementos da natureza (naturofatos) como a arvinha, a serra da Capetinga e outros eram parte do respectivo ecossistema cultural. A primeira era um local de as crianças brincarem, ao passo que a segunda era observada para se ver se viria chuva. Enfim, praticamente todos os microtopônimos, como elementos físicos, pertenciam ao ecossistema cultural local, além do nome que tinham. Consequentemente, podiam ser usados, e eram usados, para o entendimento nos atos de interação comunicativa.

4. Inter-relações entre ecossistema linguístico e ecossistema cultural
Ja vimos que quem primeiro comparou cultura e língua de uma perspectiva ecossistêmica de modo explícito foi Wilhelm Trampe, como se pode ver em Trampe (2002) e outras publicações do autor. No entanto, implicitamente as duas já vinham sendo comparadas desde as primeiras reflexões antropológicas sobre cultura. A ideia de se comparar as duas no contexto do que viria a ser a linguística ecossistêmica, porém, recua a Couto (1981). Depois ela foi retomada em Couto (1983: 34-36) e ampliada em Couto (1999). No entanto, o conceito como tal, associando explicitamente língua e cultura, foi apresentado pela primeira vez em Couto (2016). Nada do que apresentei nesses ensaios era novidade, pois os antropólogos já vinham discutindo o assunto desde pelo menos o final do século XIX, como vimos acima. O fato é que atualmente já existe até uma revista internacional dedicada às relações entre língua e cultura. Trata-se de International Journal of Language and Culture, publicada pela editora John Benjemins, de Amsterdam (Holanda).
Que a língua é parte da cultura parece não restar a menor dúvida. Tanto que a representação do ecossistema linguístico (fig. 2) e a do ecossistema cultural (fig. 3) têm a mesma aparência. A relação entre os dois é de inclusão: o ecossistema linguístico está incluído no ecossistema cultural, é parte dele, como se vê na figura 4.

 P
/  / \
/   /      \
C---L----T
Ecossistema Cultural (CPT)
Ecossistema Linguístico (LPT)
Ecossistema Linguístico-Cultural (C/LPT)
Fig. 4

A inclusão do ecossistema linguístico no ecossistema cultural tem muitas implicações. A primeira e mais óbvia é a de que o povo (T) e o território (T) dos dois são os mesmos. A segunda é o fato de que a língua de um povo é parte da cultura desse povo, é parte integrante dela. A terceira é que grande parte da cultura desse povo é de natureza linguística. Tanto que a maior parte do triângulo do ecossistema cultural é ocupada pelo ecossistema linguístico. A quarta refere-se ao fato de que tanto um como outro ecossistema são de natureza semiótica. A quinta consiste no fato de a língua poder ser veículo de cultura, ou seja, além de ser parte dela, pode manifestá-la também. A sexta consiste no fato de haver uma parte da cultura que fica fora do domínio da língua, justamente a composta pela maioria dos sociofatos, mas praticamente por todos os naturofatos e os artefatos. Cultura e língua são constituídas de representações, fato que nos leva imediatamente à questão dos índices, dos ícones e dos símbolos de Peirce (1972). Tudo que pertence a elas representa alguma coisa para os membros da comunidade. No caso da língua são os padrões de interação comunicativa (PIC), as palavras, as frases etc. Na cultura temos os fenômenos, ações, fatos (naturofatos, mentefatos, sociofatos, artefatos).  
A única diferença entre ecossistema linguístico e ecossistema cultural, se é que se pode falar em diferença, consiste em que o ecossistema cultural tem, no lado língua (L), o C de cultura. Entretanto, isso não é problema. Ambas são de natureza semiótica. Como vimos acima, cultura é também linguagem. Tanto que ela já foi representada por L, e a língua por l1, ou seja, o componente número um da cultura, sendo os demais l2, l3 etc. Já vimos também que l2 poderia ser, por exemplo, as regras culturais, de que as regras interacionais do ecossistema linguístico fazem parte. Além disso, e talvez em consequência disso, há uma parte da cultura que fica fora do domínio da língua. No entanto, como se pode ver nos exemplos dados abaixo, as regras culturais podem ser usadas em atos de interação comunicativa. Aliás, todo e qualquer item da cultura de um povo pode ser usado neles.
Embora língua e cultura (ecossistema linguístico e ecossistema cultural) estejam inextricavelmente entrelaçadas, um povo pode perder a língua sem perder totalmente a cultura, tanto que parte da última fica fora do domínio da primeira. Isso ocorreu com muitos grupos de ciganos, como os calons do Brasil, os judeus no Leste Europeu e na Península Ibérica, muitos grupos indígenas etc. No entanto, é impossível perder a cultura e manter a língua, uma vez que é impossível perder o todo sem perder suas partes. Um povo (P) pode perder também o território (T), como aconteceu com muitos nômades, como os próprios judeus e outros, mas sobreviver como uma cultura mutilada, não prototípica, ancorada ou até escorada no T de outro P. O que a cultura não pode perder é a população (P), pois a cultura só existe como hóspede da população, assim como a língua também o é. Mufwene (2001) chega a afirmar que a língua é uma espécie parasita (epífita) da população. Sem povo não há cultura nem língua. Na verdade, território é o hospedeiro da população, que é hospedeira da cultura e da língua.
O linguista brasileiro Joaquim Mattoso Câmara Jr. apresentou uma síntese bem interessante das relações entre língua e cultura. De acordo com ele

1. A língua é parte da cultura; 2. É, porém, parte autônoma, que se opõe ao resto da cultura; 3. Explica-se até certo ponto pela cultura e até certo ponto explica a cultura; 4. Tem, não obstante, uma individualidade própria, que deve ser estudada em si; 5. Apresenta um progresso que é o seu reajustamento incessante com a cultura; 6. É uma estrutura cultural modelo, que nos permite ver a estrutura menos nítida, imanente em outros aspectos da cultura (Câmara 1972: 273).
Áreas culturais podem conter em seu interior mais de uma língua, caso em que teríamos bilinguismo ou multilinguismo. Na Suíça, por exemplo, são faladas quatro línguas (alemão, francês, italiano e engadino), mas os padrões culturais do país são aproximadamente os mesmos. O mesmo se pode dizer de Quebec, no Canadá, em que se falam francês e inglês em um mesmo contexto cultural. Na região do Parque Indígena do Xingu são faladas diversas línguas, mas os povos que nele se encontram compartilham muitos traços culturais, até mesmo antes da formação do Parque. Pode ocorrer o contrário também, ou seja, falantes de uma língua estarem envolvidos em mais de uma cultura, caso em que teríamos biculturalismo ou multiculturalismo. Nas fronteiras entre povos de línguas tipologicamente muito diferentes isso deve ocorrer, ou seja, um lado não fala a língua do outro, mas compartilha com ele muitos hábitos culturais.
Um caso interessante de relação entre língua e cultura é o de uma família brasileira, por exemplo, que tenha um membro surdo em seu seio. Mesmo que o surdo não fale o português, ele compartilha muito da cultura com os parentes ouvintes. Tanto que interage com eles por meio de gestos e mímicas diuturnamente. O surdo domina praticamente tudo da cultura brasileira praticado no domínio doméstico. O mesmo não se daria com um chinês que tivesse aprendido o português na escola em seu país e viesse conviver com a mesma família. Apesar de aparentemente "falar português", ele terá muita dificuldade na interação com os membros da família, pois não está familiarizado com os padrões culturais locais. Isso mostra que as regras interacionais e as regras culturais são mais importantes numa interação comunicativa do que exclusivamente as regras sistêmicas. Para se comunicar bem em determinada língua não basta dominá-las e ser capaz de formar frases gramaticais ad libitum. Isso é importante, mas apenas como auxiliar dos dois outros tipos de regras. A interação fica muito mais difícil se o chinês for monoglota em chinês. Tratar-se-ia de uma situação muito diferente do surdo monoglota em LIBRAS.
Retomemos a questão de signos culturais extralinguísticos que podem ser usados na interação comunicativa. Pensemos no caso de alguém que estivesse indo de avião da Europa para o Japão. A certa altura ele pergunta a quem está sentado na poltrona ao lado se já estão chegando. Se essa pessoa olhar pela janela e disser "Já estou vendo o Monte Fuji", estará dizendo algo como "Sim, já estamos chegando", pois esse monte é parte integrante do Japão. Quem o vê sabe que está no país. O mesmo se poderia dizer de alguém chegando ao Rio e dissesse que já está vendo o Cristo Redentor. No primeiro caso teríamos um dado cultural do domínio dos naturofatos sendo usado em um ato de interação comunicativa; no segundo, um artefato, na mesma função.
As relações entre língua e cultura são de fundamental importância no ensino e na aprendizagem de línguas estrangeiras. Como acabamos de ver, não basta aprender livrescamente a nova língua e se tornar capaz formar frases gramaticais. As regras culturais e as regras interacionais são mais importantes do que as regras sistêmicas (gramática). Na seção seguinte abordarei esse assunto perfunctoriamente.

5. Ecossistema cultural e aprendizado de línguas estrangeiras
O fato de os especialistas em linguística aplicada e em tradução enfatizarem tanto a questão cultural não é por acaso. Eles se veem frente não apenas à questão do bilinguismo e à do multilinguismo. Para eles é de fundamental importância também a consciência e um certo conhecimento também do multiculturalismo. Os tradutores, por exemplo, têm que se haver com a interculturalidade. Até mesmo no nível comunitário os povos estão enfatizando o fato de que ser multicultural é ser mais pujante. Um país monocultural é muito mais pobre culturalmente do que um país multicultural. Se na ecologia a diversidade biológica é riqueza, o mesmo se dá na ecologia humana e na social, ou melhor, no ecossistema cultural. Quanto mais diversidade cultural, mais riqueza cultural.
Por esses e outros motivos, não basta aprender uma segunda ou mais línguas. É preciso aprender também pelo menos quais são os naturofatos e artefatos, bem como os padrões de comportamento mais apropriados nas diversas situações, quais deles são mais comuns nos atos de interação comunicativa. Por exemplo, quem estuda uma língua pelo livro em seu país natal e vai para o país em que a língua que aprendeu é falada pode ter sérios problemas se não conhecer as regras interacionais e as regras culturais associadas a essa língua. Certa feita um brasileiro que se encontrava em uma mesa de refeição com seus anfitriões na Inglaterra disse a um deles Do you pass this to me? (você me passa isto?). O inglês achou que o brasileiro não fora polido, pois, na sua língua é obrigatório incluir o please (por favor). No Brasil, a entoação interrogativa tem a mesma função do "por favor", mas na Inglaterra não. Vale dizer, pela enésima vez, que não basta adquirir regras sistêmicas que permitam formar frases gramaticais.
Uma outra situação me foi relatada por Clea Rameh, brasileira que ensinou português em Washington, EUA, por muitos anos. Sua experiência mostrou que às vezes é bom o estrangeiro não falar a língua local como os nativos, sem dominar as regras culturais e as regras interacionais no mesmo nível. Se ele cometer alguma gafe cultural, será perdoado por perceberem pelo sotaque que é estrangeiro. No entanto, se ele falar a língua como eles, poderá ser até agredido diante da transgressão de alguma regra cultural. Enfim, no aprendizado de línguas estrangeiras língua e cultura têm que andar de mãos dadas.
Em Couto (2007: 415-416), eu comentei rapidamente o caso de dois surdos. O primeiro deles é uma garota de uns 12 anos de idade, surda de nascença. Ela não aprendeu LIBRAS nem o português oralizado. Pode-se dizer que não aprendeu nenhuma língua. No entanto, comunica-se com os parentes por meio de gestos caseiros para todas as suas necessidades interacionais. É uma pessoa extremamente inteligente, eu diria mesmo de inteligência acima da média. Tanto que, quando alguém levou um computador usado para a família, foi ela quem primeiro conseguiu lidar com ele, inclusive indo além do que lhe foi ensinado. Além até mesmo de outro membro da família que está no término do segundo grau.
A segunda pessoa é um rapaz de uns 25 anos, também surdo de nascença. Tampouco ele aprendeu LIBRAS ou a oralizar o português. O que ele faz é interagir com os membros da família e amigos por meio de mímica doméstica. Inclusive comigo ele se comunicou, perguntando-me se eu ia ficar muitos dias na localidade ou se ia embora logo. No geral, ele fica sempre atento, observando quem está conversando, aparentemente, tentando deduzir o que dizem pela leitura labial, mas não parece que o conseguisse nem de maneira sofrível.
Um fato interessante é que esse meio de comunicação que os dois surdos em questão desenvolveram não tem gramática (regras sistêmicas). Ele consta apenas de alguns gestos, que apontam para determinadas coisas ou indicam determinadas ações, ou seja, ele consta apenas de itens lexicais. A conclusão inevitável é a de que o essencial na linguagem não é a gramática, mas o léxico. A gramática seria apenas um recurso adicional para expandir sua capacidade expressivo-comunicativa. Isso decorre do fato de que na verdade o essencial na língua não são as regras sistêmicas, mas a interação comunicativa, com suas regras interacionais. Esses surdos compartilham com os demais membros de suas famílias grande parte do ecossistema cultural, no qual se insere a maior parte das regras interacionais, exceto as que são naturais. É por compartilharem esse ecossistema, e os universais da comunicação, que podem comunicar-se.
Da perspectiva da linguística ecossistêmica eles têm uma língua sim. Com efeito, há uma população (os membros da família), convivendo no espaço da casa, que é seu território, no interior do qual interagem por meio de mímicas. Trata-se de uma comunidade de fala de pequenas dimensões, mas com todos os ingredientes de um ecossistema linguístico, ou seja povo (P), território (T) e modo de interagir (L).

6. Observações finais
Como vimos no lugar apropriado, ecossistema cultural se refere a tudo que tem valor sígnico (simbólico) para determinado povo (P). Não se trata de cultura no sentido de quem diz que fulano tem "cultura", é "civilizado", como faziam os gregos, para os quais "civilizados" eram eles; todos os demais povos eram "bárbaros". Tanto que a palavra tinha valor onomatopaico, indicando aquele que "não fala", apenas faz "br.br.br". Quem "falava" (tinha língua) eram só os gregos. Os demais "não falavam" porque os gregos não os entendiam.
A expressão "língua de cultura" é altamente preconceituosa, pois refere-se às línguas que têm uma "grande" literatura, como grande parte das línguas europeias. Para os gregos a única "língua de cultura" era o grego. Contrapondo-se a essa visão, o líder africano e ex-presidente da Guiné Ahmed Sékou Touré (1922-1984) afirmou que na África as línguas de cultura são as línguas africanas, uma vez que são elas que expressam as culturas africanas. Essa asserção está inteiramente certa e em sintonia com as concepções de cultura comentadas acima. Todas as línguas africanas estão inseridas em um ecossistema linguístico que, por sua vez, está inserido em um ecossistema cultural. Existem diversos grupos étnicos na África, cada um deles com sua própria língua, inserida em sua própria cultura. Há algumas exceções, no entanto, como os pigmeus, que praticamente já perderam a língua, além de outros povos, como o cassanga na Guiné-Bissau. A causa disso tem sido geralmente a invasão dos colonizadores europeus.

Referências
Bookchin, Murray. 1993. What is social ecology? In: Zimmermann, M. E. (org.). Environmental Philosophy: From Animal Rights to Radical Ecology. Englewood Cliffs, NJ: Prentice Hall.
Câmara Jr., J. Mattoso. 1972. Língua e cultura. Dispersos. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, p. 265-273.

Couto, Hildo Honório do. 1981. Semiótica da cultura e tradução. In: Mattos, Delton de (org.). Estudos de tradutologia I. Brasília: Kontakt, p. 9-32.
_______. 1983. Uma introdução à semiótica. Rio de Janeiro: Presença.
_______. 1999. Contato interlinguístico: Da Interação à gramática. Brasília: UnB. Disponível em:
https://docs.google.com/file/d/0B6hlHMM_ItiGRzJibTRORWdSUHc/edit (acesso: 10/02/2016).
_______. 2002. Anticrioulo: Manifestação linguística de resistência cultural. Brasília: Thesaurus.
_______. 2007. Ecolinguística: Estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus.

_______. 2016. A comunidade de fala Fazenda do Zé Artino. Disponível em:
http://meioambienteelinguagem.blogspot.com.br/  (acesso: 22/06/2016).
Eco, Umberto. 1974. A estrutura ausente. São Paulo: Perspectiva.
Finke, Peter. 2001. Identity and manifoldness: New perspectives in science, language and politics. In: Fill, Alwin & Peter Mühlhäusler (orgs.). The ecolinguistics reader. Londres: Continuum, p. 84-90.
Lotman, I. M. 1979. Sobre o problema da tipologia da cultura. In: Schnaiderman, Boris (org.). Semiótica russa. São Paulo: Editora Perspectiva, p. 31-41. 
Mufwene, Salikoko. 2001. The ecology of language evolution. Cambridge: Cambridge University Press.
Neves, Walter. 1996. Antropologia ecológica. São Paulo: Cortez Editora.
Peirce, Charles Sanders. 1972. Semiótica e filosofia. São Paulo: Cultrix.
Preziosi, Donald. 1977. Toward a relational theory of of culture. In: The Third LACUS Forum. Columbia, S.C.: Hornbeam Press, p. 278-286.
Sapir, Edward. 2016. Língua e ambiente. In: Couto, H. H.; Couto, Elza K., Araújo, Gilberto; Albuquerque, Davi (orgs.). O paradigma ecológico para as ciências da linguagem: Ensaios ecolinguísticos clássicos e contemporâneos. Goiânia: Editora da UFG, p. 35-55.
Stagl, Justin. 1974. Kulturanthropologie und Gesellschaft. Munique: List Verlag.
Trampe, Wilhelm. 2002. Ökologische Linguistik und Humanökologie. In: Fill, Alwin, Hermine Penz & Wilhelm Trampe (orgs.). Colourful green ideas. Berna: Peter Lang, p. 89-101.