terça-feira, 21 de março de 2017

Linguística Ambiental


1. Introdução
Há um verdadeiro caos terminológico na ampla área da Ecolinguística, a despeito do fato de ela ainda ser relativamente jovem. Ela emergiu para valer só em 1993, mas já apresenta muitas ramificações, o que, a meu ver, é indício de vitalidade, uma vez que elas são manifestação de um dos conceitos mais caros aos estudiosos de Ecologia em geral, a diversidade. Entre os sub-ramos ou vertentes que se veem na literatura, poderíamos mencionar Ecolinguística Crítica, Linguística Ecocrítica, Linguística Ecossistêmica e e seu sub-ramo Análise do Discurso Ecológica (ADE). Tem-se falado também em Linguística Ecológica (ökologische Linguistik) e Ecologia Linguística (Sprachökologie). Aliás, Ecologia Linguística é uma designação alternativa para Linguística Ecossistêmica. Em 2017 foi lançada uma revista pela editora John Benjamins, de Amsterdam, justamente com o nome de Language Ecology, sob a direção de Umberto Ansaldo e Lisa Lim, ambos da Universidade de Hong Kong.
A esses sub-ramos da Ecolinguística é preciso acrescentar a Linguística Ambiental (LA). Na verdade, veremos que grande parte do que se faz em todos eles é Linguística Ambiental, exceto, talvez, o grosso do que é produzido no âmbito da Linguística Ecossistêmica que, na verdade, não exclui temas ambientais. Na literatura tem-se falado também em Análise do Discurso Ambiental (ADA). Seu objeto se interseccionaria com o da Linguística Ambiental e o da ADE. Como o próprio nome já diz, a ADA seria o estudo apenas de discursos ambientais.
A tese que pretendo defender neste artigo é a de que o que a maioria dos ecolinguistas fazem, sobretudo os europeus, é uma Ecolinguística que só pode ser assim chamada devido ao objeto de que trata, que são questões ambientais. Ademais, o estudo deve ser feito de uma perspectiva linguística, usando modelos teóricos linguísticos, mesmo quando o ensaio é produzido por não linguistas, como veremos abaixo. Por isso, ela deve ser chamada de Linguística Ambiental. Essa LA é apenas um ramo da ampla área da Ecolinguística em geral, como acaba de ser assinalado. Eu não estou propondo nada novo. A ideia de que ensaios que se dedicam a estudar textos/discursos de cunho ambiental se enquadram na Linguística Ambiental já está in nuce em vários ensaios, posteriores e anteriores ao surgimento da própria Ecolinguística no início da década de noventa do século passado.
É interessante notar que este não é o rumo que a Ecolinguística deveria tomar se tivesse seguido as ideias seminais do precursor Edward Sapir, em seu ensaio clássico "Language and environment" (1911), nem o que defendeu o pai da disciplina, Einar Haugen (1972). Sequer é o que se vê em um dos primeiros livros que traz o termo "ecolinguística" na capa (Makkai 1993) ou o que Trampe (1990) sugeriu. O que prevaleceu foi a proposta de Fill (1987, 1993), ou seja, uma espécie de análise do discurso aplicada a questões ecológicas como questões ambientais, de minorias, de defesa da diversidade em todos os níveis etc. Tudo isso é muito importante e bem-vindo, mas é preciso ir além, assumindo a visão ecológica de mundo (VEM), a partir da qual podemos seguir o dito de Roman Jakobson Linguista sum; linguistici nihil a me alienum puto, ou seja, eu "eu sou linguista: nada do que é linguístico me é estranho". Isso envolve a categoria ecológica do holismo. Envolve, outrossim, o que se faz em Linguística Ecossistêmica, que olha para língua tanto em sua exoecologia (exterioridade da língua) quanto em sua endoecologia (interioridade da língua, estruturas). Só assim se justifica o qualificativo de holística que lhe é atribuído.
Tem-se falado muito sobre o fato de não haver consenso entre os estudiosos que se intitulam ecolinguistas, como se unanimidade fosse algo necessariamente bom. Segundo o dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues, "toda unanimidade é burra", ou seja, é justamente o contrário do que em geral se pensa, o importante é a diversidade. Diversidade de perspectivas no movimento ecolinguístico indica dinamismo, vitalidade, riqueza. A unanimidade de perspectiva seria índice de pobreza, assim como paucidade de espécies no ecossistema biológico é índice de fragilidade. 


2. As ciências ambientais
Deixando de lado a "teoria dos climas" de Montesquieu (1689-1755) que, infelizmente, não deixa de apresentar um ranço racista, podemos começar pela Antropogeografia do alemão Friedrich Ratzel (1844-1904) e sua discípula americana Ellen Semple. Embora não no sentido ecológico moderno, eles defendem a influência do meio físico no destino das sociedades de forma bastante convincente, sem o vezo racista existente por trás das ideias de Montesquieu, Gobineau e Hitler. A proposta não é racista porque vê a conformação do meio não como determinante mecânico dos destinos da humanidade, mas apresentando alguns caminhos que a humanidade poderia trilhar de modo mais fácil. Em seu Politische Geographie (1923) Ratzel dizia que "os humanos seriam inconcebíveis sem a superfície terrestre, bem como a sua maior realização no mundo, o estado" (p. 2), pois "o estado precisa viver da terra" (p. 3). Para ele, "as propriedades do estado emergem das do povo e das do solo" (p. 4). Vê-se, assim, que ele já antevia os três componentes do ecossistema linguístico, o território (T), o povo (P) e sua organização social, o "estado", que pressupõe uma sociedade, uma cultura, uma língua (L).
Ellen Semple é até mais incisiva e direta. Logo na primeira página de seu livro ela afirma que "o homem é um produto da superfície da terra. Isso significa não apenas que ele é filho da terra, poeira de sua poeira, mas que ela o amamentou, o alimentou, lhe atribuiu tarefas, direcionou seus pensamentos, lhe apresentou dificuldades que fortaleceram seu corpo e aguçou seu tirocínio, lhe apresentou problemas de navegação e irrigação e, ao mesmo tempo, lhe soprou nos ouvidos algumas sugestões de solução" (Semple 1911/1941). Ela acrescenta que "todo clã, estado ou nação inclui dois componentes: um povo e sua terra, sendo o primeiro impensável sem a segunda" (p. 51), o que, de novo e ainda que indiretamente, antecipa o tripé do ecossistema linguístico. Isso porque "as condições naturais determinam os canais pelos quais a corrente da humanidade flui mais facilmente, determinam até certo ponto a direção desse fluxo, a velocidade e o volume da corrente" (p. 6). Apesar disso, "a maior parte dos sistemas de Sociologia tratou do homem como se ele estivesse de alguma maneira fora da superfície terrestre; esses sistemas ignoraram a base terrena da sociedade" (p. 53). 
Em seguida à Antropogeografia, uma das primeiras disciplinas a falar em influência do meio nos humanos talvez seja a Psicologia. O psicólogo gestaltista Kurt Lewin afirmou que "em psicologia podemos começar a descrever a situação completa distinguindo aproximadamente a pessoa (P) e seu meio (M). Todo evento psicológico depende do estado da pessoa e, ao mesmo tempo do meio, embora a importância relativa de cada um deles varie em diferentes situações. Assim, podemos estabelecer a fórmula para qualquer evento psicológico como C = f(PM)" (Lewin 1936, p. 12). Essa fórmula deve ser lida assim: o comportamento (C) é função (f) da pessoa (P) no seu meio (M). Aí temos mais um precursor do ecossistema linguístico, composto de povo (P), se comportando (L) no seu meio (M=T). A expressão "psicologia ambiental" surgiu mais tarde, talvez ao lado de "ecopsicologia". Um dos pioneiros da Ecopsicologia é Rozsak (2001) desde a época dos hippies. Günther & Rozestraten (2005, p. 1) apresentam a "A definição de Psicologia Ambiental como o estudo das relações (recíprocas) entre os fenômenos psicológicos (comportamentos e estados subjetivos) e variáveis ambientais físicas" (ver também Günther 2005). Tanto sob uma quanto sob outra designação há diversas correntes, como, por exemplo, as praticadas por Urie Bronfenbrenner e Mitchell Tomashow, para mencionar apenas mais dois autores.
A relação entre Sociologia e meio ambiente recua pelo menos à década de 20 do século passado, com a Escola de Sociologia de Chicago, tendo à frente Robert E. Park e Ernest W. Burgess. Eles acreditavam que o entorno em que se localiza a comunidade, no caso a cidade de Chicago, tem uma forte influência sobre o comportamento humano. Partindo de conceitos da Psicologia Social, como interacionismo simbólico, e a etnografia (ecologia) – George Mead e John Dewey defendiam a ideia de que terra, cultura e população formam um todo inseparável, exatamente como na linguística ecossistêmica –, eles demonstraram que muitos dos comportamentos anômicos tinham a ver com a grande aglomeração de pessoas em pouco espaço (Plummer 1998). Mediante mapas, mostravam que alguns problemas se concentravam em determinadas regiões da cidade, que geralmente se expandia a partir do centro em círculos concêntricos, as chamadas zonas: a do comércio, no centro; a área de favelas, em torno da zona central; a da classe trabalhadora, depois da central; depois, vinha a zona residencial e, por fim, a zona da classe rica. Park, por exemplo, falava em Ecologia Humana. O fato é que essa escola foi uma das que mais influência tiveram no surgimento da Sociologia nos Estados Unidos, formando muitos dos grandes nomes mundialmente conhecidos.
Mais de meio século mais tarde, Catton Jr. & Dunlap (1979) defenderam a Sociologia Ambiental (Dunlap & Catton 1979), que se enquadraria em um novo paradigma para as ciências, o "paradigma ecológico" (Catton & Dunlap 1980). Esse novo paradigma não concorda com o "paradigma do excepcionalismo humano", contrapondo a ele o "paradigma ecológico". Os "pesquisadores que focalizam o meio ambiente físico, construído ou natural, rechaçam o princípio de Durkheim de que fatos sociais podem ser explicados somente com outros fatos sociais (Catton & Dunlap 1980: 255). Segundo esses autores, "a característica fundamental da sociologia ambiental é a importância atribuída ao meio ambiente como um fator que pode influenciar o comportamento humano e ser influenciado por ele". Enfim, a "sociologia ambiental examina as inter-relações entre o meio ambiente físico e o complexo social" (p. 251, 252). Como levam em consideração o meio ambiente físico, eles levam o ecossistema também em consideração. Como seria de se esperar, há uma grande diversidade de opiniões na área, que aparecem inclusive sob a rubrica "ecossociologia".
Existe ainda a Antropologia Ecológica, ou Ecoantropologia, de que há um ótimo apanhado histórico em Neves (1996, p. 19-21). O autor apresenta três estágios sucessivos no desenvolvimento da disciplina. O primeiro "caracteriza-se pela retomada do evolucionismo na Antropologia e pela demonstração de que o meio ambiente deve ser reconhecido como um fator gerador do processo cultural", como se pode ver na obra de Leslie White e Julian Steward, nas décadas de 40 e 50. No segundo período, década de 60, sobressaem-se os neofuncionalistas. Na obra de Roy Rappaport e Andrew Vayda, o conceito de ecossistema foi usado pela primeira vez. O terceiro período, a partir da década de 80, caracteriza-se por "uma crítica contundente aos modelos de equilíbrio homeostático defendidos pelos neofuncionalistas, ao incorporarem a visão ecossistêmica no estudo das populações humanas". É nesse momento que surge a Ecologia Humana. O termo "antropologia ambiental" tende a não ocorrer. 
Há outras ciências "eco-" e/ou "ambientais', tais como a Ecoarquitetura, a Ecofilosofia e outras. A Ecofilosofia se tornou bastante popular quando o filósofo e ambientalista Arne Naess a adotou, sob o nome de Ecosofia, criando a Ecologia Profunda em seu seio (Couto 2012: 49-67). Esta última teve uma forte influência na versão da Linguística conhecida como Linguística Ecossistêmica Crítica ou Análise do Discurso Ecológica. Praticamente toda ciência humana tem uma vertente ecológica. A Ecolinguística ao que parece foi uma das últimas disciplinas da área de humanas a incluí-la em sua agenda. É verdade que em 1911 tivemos o texto "Linguagem e meio ambiente" de Edward Sapir e que, em 1970, Einar Haugen falou em ecology of language. No entanto, foi só em 1993 que ela começou a decolar, com Fill (1993), na Alemanha, e Makkai (1993), na Inglaterra. No Brasil ela começou com Couto (2007).

3. Linguística Ecossistêmica, Análise do Discurso Ecológica e Análise do Discurso Ambiental
A fim de tentar esclarecer um pouco mais o aparente caos terminológico que domina a Ecolinguística mundial, gostaria de expor nossa versão dela, a Linguística Ecossistêmica (LE) – assim chamada por razões óbvias –, e como ela se insere nesse complexo. Para entendê-la, é preciso aceitar a visão ecológica de mundo (VEM), principalmente como defendida por Capra (1998). O nome alternativo da LE é Ecologia Linguística (Sprachökologie), em que o substantivo é "ecologia" e "linguística" adjetivo, contrariamente à Linguística Ecológica (ökologische Linguistik), com "linguística" como substantivo e "ecológica" como adjetivo. Os autores em que a LE se baseia são Peter Finke, Wilhelm Trampe e Hans Strohner. A LE não usa conceitos da Ecologia como meras metáforas, como faz a maioria dos ecolinguistas. Pelo contrário, ela é parte da Ecologia geral (Macroecologia), portanto, erige seu arcabouço epistemológico a partir de dentro da Ecologia. Ela é uma disciplina da Ecologia.
Por ser parte da Ecologia, seu conceito inicial é o de ecossistema linguístico, constituído de um povo (P), vivendo em seu território (T) e com seus membros interagindo entre si pelo modo tradicional de interagir localmente, sua linguagem (L). A figura 1 mostra o ecossistema integral da língua, no interior do qual se pode detectar o meio ambiente integral da língua. Esse ecossistema pode ser encarado como comunidade de língua e comunidade de fala, expostas pormenorizadamente em Couto (2016).

P
/  \
L--T
Ecossistema Integral da Língua
 Figura 1

Por perfilhar a VEM, a LE encara seu objeto de modo holístico. Como ninguém é onisciente, não consegue estudar tudo, o linguista ecossistêmico recorta um segmento do complexo fenômeno da linguagem que deseja pesquisar, usando a ecometodologia, o método da focalização (Garner 2004), ou seja, escolhendo uma perspectiva. O refinamento da perspectiva começa no fato de se detectarem três outros ecossistemas linguísticos no interior do ecossistema integral da língua, o natural (1), o mental (2) e o social (3), representados na figura 2 (Couto (2015).

       P1                                     P2                          P3
      /  \                                     /  \                         /  \
    L1---T1                             L2---P2                  L3---P3
Ecoss Natural               Ecoss Mental          Ecoss Social
da Língua                    da Língua                 da Língua
     (a)                                (b)                         (c)
                                               Figura 2

Pelo fato de a LE encarar seu objeto de modo abrangente, ela acabou desenvolvendo uma variante dedicada aos textos/discursos, a Análise do Discurso Ecológica (ADE). Contrariamente às demais ADs, a ADE pode analisar todo e qualquer tipo de discurso, não apenas aqueles que têm um cariz ideológico e de relações de poder, como se pode ver em Couto, Couto & Borges (2015) e em Couto & Couto (2015). Tanto a ADE quanto a LE em geral são ecológicas ontológica (pelo objeto de estudo), epistemológica (pela teoria) e metodologicamente (pelo método de abordagem dos fenômenos linguísticos). Elas não são ecológicas apenas pelo objeto, como sói acontecer (Couto a sair). 
Na LE e em seu sub-ramo ADE é possível estudar-se todo e qualquer fenômeno da linguagem. No entanto, se o investigador preferir, pode lançar mão de algumas de suas sub-ramificações, tais como Linguística Ambiental, Análise do Discurso Ambiental, além das que foram mencionadas acima, na seção introdutória.
Vejamos um quadro sinótico da Ecolinguística e suas subdivisões, como se vê nas antologias publicadas e como foi sucintamente exposto acima. Primeiro, exponho a proposta de classificação de Couto (2012: 30): Ecolinguística Crítica, Análise do Discurso Ecocrítica, Linguística Ambiental, Ecolinguística Dialética, Linguística Ecossistêmica, Ecologia das Línguas, Etnoecologia Linguística, Neurolinguística, Ecologia da Evolução Linguística, Ecologia da Aquisição de Língua, Biodiversidade e Linguodiversidade. Não é uma boa classificação, pois Neurolinguística é outra disciplina, independente; "biodiversidade e linguodiversidade" são áreas de investigação, não áreas da Ecolinguística. Por isso, atualmente prefiro a classificação a seguir.

Ecolinguística:
1. Ecolinguística Crítica;
2. Linguística Ecocrítica;
3. Ecologia das Línguas (estudo e gestão do multilinguismo);
4. Linguística Ambiental;
5. Análise do discurso Ambiental;
6. Linguística Ecossistêmica / Ecologia Linguística;
6.1. Análise do Discurso Ecológica
6.2. Todos os itens de 1 a 5 podem entrar aqui.

Todos os itens de 1 a 5 podem entrar em 6.2, ou seja, na Linguística Ecossistêmica. Isso se justifica pelo fato de ela encarar seu objeto holisticamente. Com ela, o investigador pode se debruçar sobre todo e qualquer fenômeno linguístico e, o que é melhor, de uma perspectiva unificada, a da visão ecológica de mundo. Trocado em miúdos, a Linguística Ecossistêmica poderia ser um ponto, uma perspectiva de unificação ecológica das ciências da linguagem, com o que sairíamos do aparente "caos" terminológico. Mas, se o investigador preferir, pode continuar usando qualquer uma das rubricas de 1 a 6, como, por exemplo, a Linguística Ambiental, tema deste artigo. Na verdade, "Linguística Ecossistêmica" poderia ser o item 1, com os demais incluídos nele, uma vez que ela é abrangente, holística. Desse modo, a classificação ficaria aproximadamente assim:

1. Linguística Ecossistêmica
1.1. Linguística Ecossistêmica Crítica / 1.2. Análise do Discurso Ecológica
1.1.1. Ecolinguística Crítica
1.1.2. Linguística Ecocrítica
1.1.3. Linguística Ambiental
1.1.4. Análise do Discurso Ambiental

Há muitas intersecções e sobreposições entre as diversas sub-áreas. Mas, isso é inevitável, dada a divisão do trabalho na ciência existente nos dias atuais. Na verdade, há uma espécie de competição darwiniana entre elas. De qualquer forma, essa segunda classificação parece ser um bom caminho para "pôr ordem no caos terminológico". Talvez com alguns ajustes, como ADA vindo logo após ADE. Mas, isso é de somenos importância. Este assunto merece um tratamento mais pormenorizado, o que não pode ser feito aqui. 
Gostaria de salientar que a Linguística Ambiental só é ecológica pelo objeto de estudo. Muitos, se não todos, os demais ramos da Ecolinguística, exceto a Linguística Ecossistêmica, são ecológicos em geral pelo objeto e pelo fato de às vezes pinçarem conceitos da Ecologia Geral (como sustentabilidade, diversidade etc.) e os transplantar para o estudo dos fenômenos da linguagem. A Linguística Ecossistêmica, por seu turno, é ecológica pela teoria, por incluir questões ecológicas em seu âmbito de interesse e pela metodologia. Como demonstrei em Couto (a sair) ela é ecológica pela epistemologia, pela ontologia e pela metodologia.

4. A emergência de uma linguística ambiental: breve histórico
Comecemos por um breve esboço histórico. Eu já encontrei os termos environmental linguistics (inglês), linguistique environnementale (francês) e linguistica ambientale (italiano). Um termo alemão que parece expressar o conceito que defendo no presente artigo seria Umweltlinguistik (linguística do meio ambiente/ambiental), mas ele não foi encontrado. Por outro lado, Umweltpsychologie e Umweltsoziologie apareceram. Em português, talvez o primeiro uso do termo "linguística ambiental" tenha sido feito em Couto (2007), exceto, talvez, usos esporádicos fora da linguística. A designação "linguística ambiental" aproximaria a disciplina da "sociologia ambiental", "psicologia ambiental" e "antropologia ambiental, entre outras, pelo menos nominalmente.
Aparentemente, o primeiro linguista a utilizar a expressão "linguística ambiental" por escrito foi Maher (1995) – há versões anteriores desse texto –, embora não exatamente no sentido em que ela está usada no presente contexto. Tratando da situação sociolinguística do Japão, ele salienta que a realidade está longe de ser tão uniforme e padronizada como em geral se pensa. À semelhança de diversos outros países, como a Alemanha, que inspirou o modelo japonês, o ideal é ter uma língua comum, uma língua nacional como um símbolo identificador do estado; linguístico-ecossistemicamente isso corresponde à língua estatal. Com isso, ignora-se a diversidade existente no arquipélago, como os dialetos tohoku, ininteligíveis a falantes de outros dialetos, os dialetos de Okinawa e até a obsolescente língua ainu de Hokkaido. Ignora-se também a linguagem dos burakumin, uma espécie de intocáveis, de párias do passado. Isso para não falar nas diversas línguas de imigrantes. Enfim, Maher está preocupado com a ecologia das línguas e dialetos. Não é por acaso que o livro em que seu ensaio aparece se intitule justamente Diversity in Japanese culture and language, de que ele é um dos organizadores (Maher & MacDonald 1995).
O segundo uso do termo aparece em Harré, Brockmeier &; Mühlhäusler (1999). Como é nessa obra que ele foi usado no sentido mais próximo do que lhe é atribuído no presente artigo, deixo o comentário do que esses autores disseram para a seção seguinte.
O terceiro uso do termo que encontrei é o feito por Francesco Grande. Ele considera sua "linguistica ambientale" uma tradução do inglês ecolinguistics. Acrescenta que "o uso linguístico de uma comunidade é influenciado pela estrutura ambiental (ingl. ecological structure) e, consequentemente, que um sistema de vida nômade produz uma fragmentação da comunidade que se reflete na multiplicidade linguística". Por fim, "se a estrutura ambiental se modifica, o uso linguístico também se modifica: quando o nomadismo passa ao sedentarismo, a multiplicidade linguística será normativizada pelo poder central". Ele disse tudo isso a propósito do árabe, que está longe de ser uma língua homogênea. Pelo contrário, algumas de suas variedades parecem mais línguas diferentes do que dialetos (Grande 2006/2007: 55, 56). Enfim, para Grande "linguística ambiental" é aproximadamente o que Haugen dizia de ecology of language, ou seja, a ecologia das línguas. As ideias de Grande lembram as de Ratzel e Semple vistas acima.
O termo "linguística ambiental" tem sido usado em sentidos que nada têm a ver com linguística. É o caso de Environmental Linguistics: A Typology of Visual Factors in Shopping Malls de John D. Woods & Edward H. Sewell Jr. In: Roberts Braden et al. [orgs.] 1993. Art , Science and Visual Literacy  I.  Blacksburg, VA: The International Visual Literacy Association, Inc.). Para os autores, "o meio ambiente deve ser considerado uma forma de comunicação, com a linguística ambiental como uma nova disciplina". Nesse caso, o meio ambiente construído é tratado como um tipo de linguagem. No contexto de um curso de comunicação visual, os autores entrevistaram 64 estudantes. O objetivo era comercial, embora tenham acrescentado que "já é tempo de aprendermos a linguagem do meio ambiente e promover o letramento espacial" (p. 185ss.).
Como já mencionado acima, é em Harré, Brockmeier &; Mühlhäusler (1999) que "linguística ambiental" é usada na acepção mais próxima da que eu lhe atribuo. Eles usam a expressão apenas de passagem no começo, mas todo o livro pode ser usado em um curso de Linguística Ambiental. Tanto que na primeira linha do Prefácio (p. vii), eles dizem que "o tópico deste livro é o discurso do ambientalismo", acrescentando logo em seguida que esse discurso inclui tanto os que são "a favor da preservação do status quo quanto os trabalhos dos críticos e reformadores". O nome dado por eles a esse objeto de estudo é greenspeak, que tenho traduzido por verdilíngua, que se apresentaria sob a forma de vários dialetos.
No capítulo I, os autores falam dos discursos ambientais, que são o objeto da linguística ambiental. No II, apresentam os fundamentos linguísticos para esse tipo de estudo, passando ao "uso retórico da ciência" no III. O capítulo IV fala das "narrativas ambientais". No V exploram o poder das metáforas, muito valorizadas na linguística por Mühlhhäusler. Os capítulos VI e VII são dedicados à dimensão temporal e à etno-ecologia, respectivamente. Um capítulo central na proposta do livro é o VIII, chamado de "Linguistics as environmentalism", um tanto inapropriadamente a meu ver. Por fim, o capítulo IX fala dos domínios moral e estético do ambientalismo. Trata-se de uma longa enumeração, mas que se justifica pelo fato de se tratar de uma espécie de "Manual de Linguística Ambiental".
Tanto na Inglaterra quanto, posteriormente, na Austrália (Adelaide), Peter Mühlhäusler ministrou cursos (ver Mühlhäusler 20126) e orientou pesquisas de alunos no contexto da Linguística Ambiental, fato confessado por ele logo no capítulo I do livro. Antes de se aposentar, ele teve uma intensa atividade nesse sentido, incluindo questões como morte de língua, minorias linguísticas, diversidade linguística e seu valor para a pujança da cultura de um povo e a questão do desenvolvimento e suas consequências no meio ambiente, tarefa a que Luisa Maffi se dedica com afinco (cf. www.terralingua.org). Uma de suas fontes confessas é Halliday (2001). Em Mühlhäusler (2003), o assunto "linguística ambiental" é retomado, embora sob a rubrica de "ecolinguística". 
Enfim, o termo "linguística ambiental" tem aparecido em lugares e tempos diferentes, com acepções as mais diversas. Por exemplo, em seu texto "Ecolinguistics: state of the art 1998" na coletânea ecolinguística The ecolinguistics reader, Alwin Fill menciona a expressão "linguística ambiental" para questões ecológicas e ambientais, mas prefere "language ecology" e "linguistic ecology" (Fill 2001: 46). É uma pena, pois a acepção que ele recusou é aproximadamente a que eu atribuo ao termo. Ocorreu também no texto de Nadège Lechevrel "Intertwined histories of ecolinguistics and ecological approaches of language(s): Historial and theoretical aspects of a research paradigm" (2009), embora en passant. Entre os cinco modelos que ela acha que podem ser identificados na Ecolinguística atualmente, figura "Eco-critical discourse analysis in discourse analysis", que considera uma designação alternativa para "environmental linguistics". Infelizmente, a autora não fez nenhum comentário sobre a expressão. De qualquer forma, isso mostra que o conceito que ela expressa estava pairando no ar.

5.  O que é linguística ambiental?
Vimos acima que a Linguística Ambiental foi mencionada pela primeira vez no Brasil em Couto (2007: 337). Couto (2012: 31) apresenta uma das primeiras tentativas de conceituação de LA. De acordo com a autora, "a chamada linguística ambiental também tem muitos representantes, quando não por ser muito afim à ecolinguística crítica. Um dos praticantes mais famosos é Peter Mühlhäusler. Mas, em português mesmo temos pelo menos dois, quais sejam, Rui Ramos (da Universidade do Minho, Portugal) e Adelaide Ferreira (da Universidade de Coimbra). A análise do discurso ecocrítica vai na mesma direção".
Pouco depois, Couto (2013) salientou que um equívoco em relação à Ecolinguística é confundi-la com estudo do ambientalismo, das questões ambientais, da crítica à devastação e poluição do nosso meio vital". O texto acrescenta que "realmente existe um ramo da disciplina que poderia ser chamado de linguística ambiental, como o que faz Mühlhäusler, juntamente com outros autores" (cf. Harré, Brockmeier & Mühlhäusler 1999). No texto, lê-se ainda que "apesar de lembrar a 'sociologia ambiental' de Catton e Dunlap, a linguística ambiental é aproximadamente o mesmo domínio a que se dedica a ecolinguística crítica ou linguística ecocrítica". A conclusão é que todas essas vertentes "podem ser acolhidas no seio da ecolinguística, inclusive porque ela tem uma visão abrangente, holística, dos fenômenos da linguagem" (Couto 2013: 281-282).
Minha proposta é de que a Linguística Ambiental seja o estudo, a análise, a crítica de textos/discursos que falam de temas ambientais, quer sejam eles ambientalmente corretos, quer tratem de acontecimentos antiambientais ou pseudoambientais. O importante é que o objeto desse texto/discurso tenha a ver com ambientalismo e o estudo tenha sido feito por um linguista, de qualquer orientação, ou por não linguistas usando algum modelo teórico linguístico, como as diversas versões da Análise do Discurso. É justamente por isso que ela tem o nome que tem, Linguística Ambiental. Vimos que para Harré, Brockmeier &; Mühlhäusler (1999) ela pode tratar também de outras questões, como as que se veem em Halliday (2001). Basicamente, porém, LA é o estudo de questões que tenham a ver com o ambientalismo.
Na expressão "linguística ambiental", o substantivo é "linguística", ao passo que "ambiental" é o adjetivo, vale dizer, o modelo teórico é a linguística, enquanto que seu objeto são as questões ambientais, o ambientalismo. Do mesmo modo, na Linguística Ecossistêmica se tem chamado a atenção para o fato de que seu nome alternativo é Ecologia Linguística, em que o substantivo é "ecologia", e "linguística" o adjetivo, o que implica que se trata de uma ciência ecológica que se debruça sobre os fenômenos da linguagem. Contrariamente à grande maioria dos ecolinguistas europeus e, frequentemente, não europeus, a Linguística Ecossistêmica (ou Ecologia Linguística) não pinça conceitos da ecologia e os transplanta para o domínio da Linguística. Pelo contrário, o linguista ecossistêmico está dentro da Ecologia Geral (Macroecologia), a partir de onde estuda fenômenos linguísticos.
A LA pode se dedicar a texto/discursos que falem de toda e qualquer questão ambiental, usando ou não um modelo teórico de cunho ecológico. O que faz dela "ambiental" é basicamente o objeto, não necessariamente a teoria, nem a metodologia, como acontece na Psicologia Ambiental (Günther). O que há de "ecológico" na própria linguagem que usam são expressões como "eco-", "natural", "orgânico", "ambientalmente correto", "amigo do meio ambiente" etc. Às vezes toma-se posição contra ideologias como antropocentrismo, etnocentrismo, androcentrismo/machismo etc. Pode acontecer de se usarem conceitos ecológicos, mas declaradamente como metáforas, posição adotada por Harré, Brockmeier &; Mühlhäusler (1999) e Mühlhäusler (2003). Acontece que isso pode ser feito de pontos de vistas teóricos os mais variados, como veremos mais pormenorizadamente na seção 6.
Um ensaio é considerado como inserto no âmbito da LA se, no mínimo, lidar com textos/discursos ambientais e for escrito por um linguista. Disse "no mínimo" porque ele pode ainda conter metáforas ecológicas, como faz grande parte dos ecolinguistas europeus, e/ou usar diversos conceitos ecológicos ou relacionados com ecologia. Enfim, qualquer ensaio produzido por um linguista, sobretudo se ele se considera ecolinguista, e tratar de temas ambientais será um ensaio em LA. É, portanto, uma sub-área bastante abrangente da Ecolinguística, que já é abrangente. Porém, nem tudo que tratar de temas ambientais é linguística ambiental. Por exemplo, se um sociólogo, um psicólogo ou um antropólogo se debruçar sobre esses temas, o que teremos é Sociologia Ambiental, Psicologia Ambiental, e assim sucessivamente, mesmo que diga aproximadamente a mesma coisa e da mesma maneira que um linguista diria.
A LA é definida basicamente por ter como objeto um tópico ambiental, quando tratado por um linguista ou, pelo menos, quando se parte da perspectiva linguística, por exemplo, baseando-se em algum modelo teórico linguístico. Ela é um dos ramos da Ecolinguística em geral. Quem a pratica é ecolinguista, mas no sentido de que se dedica ao estudo de textos/discursos sobre questões ambientais, independentemente do modelo teórico utilizado. Do mesmo modo, a Linguística Ecossistêmica também é Ecolinguística, porém, com mais razão pois, como vimos, ela é ecológica pelo objeto de estudo, pela teoria e pela metodologia (Couto a sair).
Vejamos uma evidência de que o que estou chamando LA é o que a maioria dos ecolinguistas faz. Em cinco coletâneas publicadas desde 1996, eu contei um total de 75 textos. Desses 49 se dedicam a temas ambientais e, uns poucos, a questões de minorias. Os 26 restantes tratam de teoria. A estatística a favor das questões ambientais e de minorias é maior ainda nos textos publicados em Language and ecology, órgão da International Ecolinguistics Association, disponível em www.ecoling.net.
Devo ressaltar que há autores que não aceitam a ideia de que a Ecolinguística deveria se dedicar apenas à defesa do meio ambiente e à defesa das minorias, tarefa nobilíssima, a que a própria Linguística Ecossistêmica pode se dedicar. O único problema é que a essa defesa não deve ser a única finalidade de nossa disciplina, como defendem alguns autores de renome. Um deles é Salikoko Mufwene que, embora não se intitule ecolinguista, o que ele faz está perfeitamente em consonância com os princípios linguístico-ecossistêmicos. Na Alemanha, temos os ecolinguistas Peter Finke, Wilhelm Trampe e Hans Strohner. Finke foi um dos primeiros a sugerir o uso de ecossistema. Trampe deu seguimento a suas propostas. Strohner, por fim, não só fez o mesmo como foi o primeiro autor usar a expressão "linguística ecossistêmica" por escrito. Na Austrália, temos Joshua Nash e seu ex-orientador, Peter Mühlhäusler. Acabamos de ver que Mühlhäusler trata de temas ambientais também, mas não só. Ele vê o objeto da Ecolinguística holisticamente.
Recentemente o Editor de Resenhas da publicação Language and ecology, da International Ecolinguistics Association, enviou um convite a potenciais resenhadores de 11 livros de "ecolinguística e assuntos relacionados". Nenhum deles, porém, porta sequer a palavra "linguística" na capa. Dois deles eram de Ecocrítica (ecocriticism), um da área da Psicologia, sendo que nenhum dos demais era escrito por algum dos ecolinguistas internacionalmente conhecidos.
Por fim, nos congressos ecolinguísticos internacionais, as questões ambientais, de minorias, de línguas ameaçadas e assuntos assemelhados dominam avassaladoramente. Por exemplo, em um deles, os eixos temáticos foram: (1) Diversidade linguística e biológica; (2) Língua e problemas ambientais; (3) Como temas ambientais aparecem em textos? (4) Como o sistema linguístico transporta ideias ecológicas e antiecológicas? (5) Sistemas linguísticos mundiais como eco-sistemas. Só o último deles não tem a ver diretamente com o objeto da Linguística Ambiental.

6. Alguns ensaios de linguística ambiental mesmo que avant la lettre
Estudos que se enquadram na Linguística Ambiental como aqui proposta antecedem de muito o próprio surgimento da Ecolinguística como disciplina, que começou com Fill (1993) e Makkai (1993). O que é mais, nesse caso incluem-se tanto os que foram feitos no âmbito da Ecolinguística (ver comentário sobre as coletâneas feito acima), portanto, de 1990 em diante, quanto ensaios anteriores, cujos autores provavelmente nunca ouviram falar em Ecolinguística. O fato é que grande parte dos textos que se intitulam ecolinguísticos só o são por tratarem de temas ambientais, antiambientais, pseudoambientais, enfim, por criticarem textos/discursos que querem se passar por ambientalmente corretos sem o serem, por terem sido produzidos de alguma perspectiva linguística. Muitos desses ensaios ecolinguísticos usam o arcabouço teórico da Análise do Discurso Crítica de Fairclough ou outro modelo teórico. A única coisa que eles têm de ecológico é o objeto de estudo. No entanto, preenchem as duas exigências básicas para se qualificarem como sendo de Linguística Ambiental: tratam de temas ambientais e são produzidos da perspectiva linguística, inclusive da Linguística Ecossistêmica, sobretudo de sua variante Análise do Discurso Ecológica.  A seguir, apresento três exemplos brasileiros.
O primeiro é Carvalho (1989). Vejamos como a própria autora resume o conteúdo de sua dissertação de mestrado (p. VI):

Destacamos duas matrizes discursivas que interpretam o acontecimento ecológico: o discurso ecológico oficial e o discurso ecológico alternativo. O primeiro é aquele enunciado pelas instituições governamentais e intergovernamentais. Opera dentro dos limites do pensamento liberal, propondo estratégias ecológicas compatíveis com o desenvolvimento industrial capitalista. O segundo está ligado aos setores do movimento ecológico que empreendem uma crítica radical ao modo de produção capitalista, à cultura urbano-industrial, e à razão ocidental. Aponta soluções baseadas em modos não predatórios de produção, bem como numa outra ética das relações entre os homens. Constitui-se no contexto dos chamados novos movimentos sociais e produz, através de uma prática política diferenciada, novos valores e novos sujeitos sociais. Esses discursos lutam, de seus lugares antagônicos, por territórios de significação, disputando a hegemonia da interpretação do acontecimento ecológico.

A dissertação foi produzida por uma especialista em educação ambiental e defendida no Departamento de Psicologia da Educação da Fundação Getúlio Vargas. Vale dizer, nem a especialidade da autora nem a instituição têm algo a ver com estudos da linguagem. É bem verdade que ela cita Fritjof Capra, Foucault e a especialista em Análise do Discurso francesa pêuchetiana Eni Orlandi. Ela fala de "discurso ecológico oficial" e "discurso ecológico alternativo" de modo genérico, extralinguístico. Mesmo assim, se alguém tirasse a data do texto e dissesse que se trata de um ensaio colinguístico, ninguém acharia estranho. Tanto que alhures eu a chamei de uma dissertação ecolinguística avant la lettre. O importante no presente contexto é que ela pode perfeitamente ser qualificada como uma dissertação em Linguística Ambiental, quando não porque cita uma linguista e um filósofo da linguagem para falar de dois tipos de discurso ambiental.
O segundo trabalho é Csillag (1999). Trata-se de uma outra dissertação de mestrado, também da Fundação Getúlio Vargas. Eis o resumo:

O trabalho utiliza algumas ferramentas da Semiótica para realizar uma análise do discurso ambiental das empresas. Assim, analisa os pormenores que se encontram por trás do discurso oficial das empresas, chegando ao discurso real, ou que está nas entrelinhas do que é oficialmente divulgado. Na análise do discurso, também é feita uma análise do papel ético e da responsabilidade social das empresas na sociedade. Uma vez encontrado o discurso real, o trabalho apresenta uma orientação para a formulação de futuros discursos empresariais ambientais.

Essa dissertação emergiu no âmbito da Administração de Empresas, utilizando "ferramentas da Semiótica". Mesmo assim, ela já é bem mais "linguística" do que a dissertação de Carvalho, mesmo porque foi orientada pelo conhecido linguista Izidoro Blikstein. Como cita também muitos ecologistas e ambientalistas, pode perfeitamente ser enquadrada no âmbito da LA. O resumo está aí para confirmar essa conclusão. Com efeito, para ser qualificado de Linguística Ambiental, basta tratar de questões ambientais e ser feito por linguista ou, pelo menos, apoiar-se em trabalhos de linguistas. A dissertação foi escrita apenas seis anos após a publicação dos dois primeiros textos ecolinguísticos seminais mencionados acima.
A dissertação de Menezes (2008) foi produzida um ano após a publicação do primeiro livro de Ecolinguística no Brasil (Couto 2007). Vejamos seu resumo:

Este trabalho busca analisar a composição discursiva sobre questões ambientais presentes no jornalismo impresso em dois jornais de Minas Gerais. O estudo enviolveu a leitura e análise de matérias jornalísticas do Estado de Minas e do Hoje em Dia no período entre maio e junho de 2007, marcado pela temática aquecimento global e o Dia Mundial do Meio Ambiente. Para a operacionalização da análise foi usada a metodologia da análise do discurso francesa, proposta por Maingueneau, Brandão e Orlandi. A importância de analisar tal composição discursiva está no fato de que hoje, os processos de comunicação acontecem em redes, e mudanças profundas e irreversíveis nos processos de produção e intercâmbios simbólicos estão presentes na sociedade contemporânea, afetando, como nunca se viu antes, a vida das pessoas. A abordagem do tema ambiental permite interpretar a essência de uma interface global midiática. Por conseguinte, a análise da mídia permite detectar o papel importante que ela tem na divulgação de políticas públicas nacionais e internacionais desta área. Com certeza, isso evidencia seu caráter de formadora de opinião. Diante dessas abordagens que se instituem, como a mídia tem apresentado as questões ambientais e por que são assim expostas? Para tanto se faz necessário discutir como as matérias jornalísticas se fazem. A pesquisa tem por objetivo analisar o discurso ambiental presente nos jornais Estado de Minas e Hoje em Dia, através dos gêneros informativos e opinativos; identificar as ações nas quais as questões ambientais estão presentes e caracterizar as estratégias discursivas presentes nos jornais. A interpretação dos dados analisados permitiu evidenciar, entre outros resultados, que o discurso ambiental presente nos jornais mineiros remete a outros discursos como a predominância das fontes oficiais e o destaque à racionalidade econômica associada aos pressupostos do desenvolvimento sustentável.

A despeito do fato de a dissertação ter sido produzida em um mestrado em Extensão Rural, não resta a menor dúvida de que se trata de um trabalho de LA. A autora analisa o discurso ambiental de dois jornais mineiros com objetivos claramente ambientalistas. As fontes teóricas utilizadas são de linguistas, além de diversos outros autores. Os dois motivos básicos que justificam sua inclusão na LA é o ter tratado de tema ambiental e usado obras linguísticas como base teórica. Das três monografias acadêmicas, a de Menezes é, ironicamente, a que foi produzida no âmbito do curso mais distante da área de letras.
É altamente provável que Carvalho, Csillag e Menezes nunca tenham ouvido falar em Ecolinguística. No entanto, vimos que seus ensaios se adéquam perfeitamente ao arcabouço da LA. Isso mostra a abrangência desse ramo da Ecolinguística que, por si só, já é bastante abrangente. Repitamos, para determinado ensaio ser considerado um estudo em Linguística Ambiental basta atender dois requisitos: tratar de assunto ambiental e ser feito a partir de algum modelo teórico linguístico, quer o autor seja linguista, quer não.
Há outras teses e dissertações muito semelhantes às três que acabam de ser comentadas. Por exemplo, a dissertação de mestrado de Cristina Zanella Rodrigues, “As mudas romperam o silêncio”: discurso ecológico e movimento campesino, foi defendida na Universidade Católica de Pelotas (RS), em 2009, na área de Letras. Por ter sido escrita por uma linguista e sobre questão ambiental, pode ser considerada como uma monografia de Linguística Ambiental. A tese de doutorado de Cristina Pontes Bonfiglioli, Discurso ecológico: a palavra e a fotografia no Protocolo de Kyoto, 2008, mesmo que com menos razão, também pode ser uma tese de Linguística Ambiental, mesmo tendo sido defendida na Escola de Comunicações e Artes da USP, ou seja, na área de comunicação. A autora fala da questão ambiental e usa pelo menos Foucault como base teórica.

7. Observações finais
Diante da tese que defendo, pode parecer que eu seria contra o ambientalismo ou contra quem se dedica a ele. Pelo contrário. Os praticantes de Linguística Ecossistêmica podem se dedicar, e têm se dedicado, ao ativismo ambiental. Alguns de seus praticantes são dedicados ativistas do ambientalismo. A única diferença relação à LA e ao que fazem muitos ecolinguistas é que, ao fazê-lo, o fazem a partir de seu sub-ramo Análise do Discurso Ecológica (ADE). Isso se deve ao fato de ambas serem parte do ramo da Ecolinguística chamado Linguística Ecossistêmica, que seria um ponto de convergência, um ponto de união das diversas tendências existentes no interior da Ecolinguística. Se se dispensasse o termo "ecolinguística" e se adotasse a Linguística Ecossistêmica, todas as questões mencionadas acima teriam guarida em algum de seus ramos e sub-ramos. 
Ensaios feitos por sociólogos sobre questões ambientais, sem usar literatura linguística, em princípio pertencem à Sociologia Ambiental; os feitos por psicólogos, à Psicologia Ambiental, e assim sucessivamente. Do mesmo modo, os ensaios sobre assuntos ambientais feitos da perspectiva linguística pertencem à Linguística Ambiental.  Repetindo, teremos um ensaio de Linguística Ambiental sempre que o tema tratado for uma questão ambiental analisada por um linguista ou por alguém que utilize pelo menos parcialmente fontes linguísticas. 

Referências
Capra, Fritjof. 1998. Pertencendo ao universo. São Paulo: Cultrix, 10ed.
Carvalho, Isabel Cristina Moura. 1989. Territorialidades em luta: uma análise dos discursos ecológicos. Fundação Getúlio Vargas, dissertação de mestrado em Psicologia da Educação.
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Trampe, Wilhelm. 1990. Ökologische Linguistik: Grundlagen einer ökologischen Wissenschafts- und Sprachtheorie. Opladen: Westdeutscher Verlag.

*     *     *     *     *

APÊNDICE

NOTA: Sugestão de programa para um curso de Linguística Ambiental de um semestre. Trata-se de mera sugestão. O programa pode ser ampliado, aumentado, diminuído, parcial ou totalmente, enfim, adaptado às necessidades do professor e dos alunos. Os números entre parênteses na Bibliografia remetem ao item do programa no qual ele pode ser utilizado. Mühlhäusler (2016) é uma sugestão de como se ensinar ecolinguística em geral na universidade.

LINGUÍSTICA AMBIENTAL

1. A Ecolinguística
2. Linguística Ambiental e seu lugar na Ecolinguística
3. Outras disciplinas ambientais, como Psicologia Ambiental e Sociologia Ambiental.
4. O ambientalismo: caracterização e pequeno histórico
5. Teoria linguística a ser utilizada (pode ser uma das variantes da Análise do Discurso)
6. Estudo de alguns ensaios que se enquadram no âmbito da Linguística Ambiental
7. Análise de textos/discursos sobre catástrofes naturais
8. O tratamento dado pele mídia impressa e televisiva sobre a devastação do meio ambiente para a agropecuária
9. A educação ambiental
10. Um estudo de caso (sugestão: Ramos 2013).

Bibliografia [ver também as Referências do artigo].
Alexander, Richard. 2015. Sobre a necessidade de submeter o discurso ambiental contemporâneo à investigação reflexiva. ECO-REBEL v. 1, n. 2, p. 30-52 (5-8).
http://periodicos.unb.br/index.php/erbel/article/view/16524/11767 (acesso: 22/03/2017)
Couto, Hildo Honório do. 2007. Ecolinguística: estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus. Seção  VI (caps. 2, 3, 4, 5); seção VII (caps. 2, 3, 4, 5); seção VIII (cap. 3).
_______; Couto, Elza; Araújo, Gilberto; Albuquerque, Davi. (orgs.). 2016. O paradigma ecológico nas ciências da linguagem: Ensaios ecolinguísticos clássicos e contemporâneos.  Goiânia: Editora da UFG (nesta coletânea há textos sobre todos os tópicos do programa).
Fill, Alwin. 2015. Ecolinguística: a história de uma ideia verde para o estudo da linguagem. ECO-REBEL v. 1, n. 1, p. 7-18 (5-8).
http://periodicos.unb.br/index.php/erbel/article/view/15123/10834  (acesso: 22/03/2017).
Fill, Alwin & Peter Mülhlhäusler (orgs.). The ecolinguistics reader. Londres: Continuum (1).
Harré, Rom, Jens Brockmeier &; Peter Mühlhäusler. 1999. A study of environmental discourse. Thousand Oaks, Cal.: Sage Publications (2).
Mühlhäusler, Peter. 2003. Language of environment, environment of language: a course in ecolinguistics. Londres: Battlebridge (obre itens de 1 a 8).
Mühlhäusler, Peter. 2016. A ecolinguística na universidade. Ecolinguística: revista brasileira de ecologia e linguagem (ECO-REBEL), v. 2, n. 1, p. 6-78. Disponível em:
http://164.41.201.6/periodicos/index.php/erbel/article/viewFile/23078/2297 (acesso: 21/06/2017).
Ramos, Rui. 2009. O discurso do ambiente na imprensa e na escola: Uma abordagem linguística. Lisboa: fundação Calouste Gulbenkian / Fundação para a Ciência e Tecnologia (7, 8, 9).
_______. 2013. O rei de Espanha foi caçar elefantes: A construção discursiva do evento nos media portugueses. Cadernos de linguagem e sociedade v. 14, n. 1, p. 17-40 (7, 8, 10).
_______. 2015. O ambiente como argumento final na imprensa brasileira. ECO-REBEL v. 1, 1, p. 95-106.

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