segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ecossistema cultural


terça-feira, 28 de junho de 2016

(Hildo Honório do Couto, Universidade de Brasília)

As línguas formam um grande ecossistema cultural (Gilberto Gil)

1. Introdução
A afirmação de Gilberto Gil não é necessariamente verdadeira, mas aponta na direção certa. Isso porque o grande cantor e ex-Ministro da Cultura associa "língua" a "ecossistema cultural". Gil só não acertou ao deixar implícito que um mero conjunto de línguas, ou o conjunto de todas elas, formaria um "ecossistema cultural". Na verdade, os ecossistemas culturais existem e estão associados a língua, mas no sentido de esta fazer parte daqueles. O ecossistema cultural compreende, em seu interior, o ecossistema linguístico. Pode até conter mais de um ecossistema linguístico. Isto porque a língua é parte da cultura, como os antropólogos vêm defendendo há várias décadas.
É bem verdade que hoje em dia há uma tendência para se falar em "ecossistema" de tudo (espiritual, virtual etc.), de certa forma banalizando o conceito. No entanto, o conceito de ecossistema cultural faz sentido. Tanto que ele está implícito e às vezes claramente explícito em muitos ensaios antropológicos, uma vez que a antropologia é a ciência que mais tem a ver com a questão da cultura. Por exemplo, Lewis Morgan (1818-1881) e Edward Tylor (1832-1917) associaram língua e cultura já no século XIX. Aliás, a definição de Tylor vem sendo repetida até hoje. O antropólogo Franz Boas (1858-1942) não só associou as duas como chegou a escrever ensaios sobre línguas indígenas norte-americanas. Seu discípulo Edward Sapir (1884-1939) foi mais longe, tornando-se uma espécie de dublé de antropólogo e linguista. De fato, ele é conhecido, respeitado e frequentemente citado em ambas áreas. Foi até mesmo o primeiro a escrever um ensaio dedicado à relação entre língua e meio ambiente (Sapir 2016).
Segundo Neves (1996), a antropologia ecológica começou com Leslie White (1900-1975), que restaurou o pensamento evolutivo na antropologia. Em seguida Julian Steward (1902-1972) introduziu o método da ecologia cultural a fim de "resgatar dentro da Antropologia o conceito de meio ambiente como fator gerador de cultura" (p. 34), contrariamente à ideia tradicional de que "cultura vem de cultura". Por fim, Andrew Vayda e Roy Rappaport opuseram a ecologia humana à ecologia cultural de Steward, introduzindo o conceito de ecossistema na antropologia, com enfoque na população.
Do lado linguístico, podemos citar Kenneth L. Pike, que tem uma visão ampla da língua, inserindo-a em um contexto antropológico mais amplo, chegando mesmo a se aproximar do que hoje se chama de ecolinguística. Foi ele que propôs a distinção entre visão 'ética' e 'êmica', dos fenômenos linguísticos e culturais, hoje moeda corrente entre os antropólogos, partindo dos conceitos linguísticos de 'fonética' e 'fonêmica', sendo esta o nome que o estruturalismo americano dava ao que na Europa era chamado de fonologia. A primeira é a perspectiva de quem está de fora, enquanto que a segunda é a de quem está dentro e conhece a estrutura e o funcionamento da cultura. Infelizmente, porém, muitos antropólogos atuais vivem anos a fio junto a um grupo indígena, assimila sua cultura, e sua língua, espera-se, mas não dão um exemplo sequer de dado linguístico. É como se a língua não fosse parte da cultura, e a mais importante.

2. Ecossistema biológico e ecossistema linguístico
Sabemos que a variante da ecolinguística chamada linguística ecossistêmica tem esse nome por partir do ecossistema, que é o conceito central da ecologia geral ou macroecologia. Na ecologia biológica temos, obviamente, o ecossistema biológico, que consta de uma população (P) de organismos vivos (animais ou vegetais), seu habitat ou território (T) e as interações (I), tanto interação organismo-mundo quanto interações organismo-organismo. A totalidade de P, T mais I forma o ecossistema biológico, no interior do qual T é o meio ambiente de P. Veremos logo a seguir que meio ambiente da língua é um tanto diferente, pois ele equivale ao que seria o meio ambiente de I. Portanto, o 'meio ambiente da língua' é o locus das interações que constituem a língua (natural, mental, social). Isso equivale a dizer que o 'meio ambiente' de I (interações ecológicas) é o lugar em que essas interações se dão. O ecossistema biológico pode ser representado como se vê na figura 1.

P
/   \
I-----T
Ecossistema Biológico
Fig. 1

No ecossistema linguístico temos exatamente os mesmos componentes, motivo pelo qual a variante brasileira da ecolinguística é chamada de linguística ecossistêmica, também conhecida como ecologia linguística. Isso quer dizer que se trata de uma disciplina que está em pé de igualdade com a ecologia biológica, embora inclua também a ecologia social (p. ex., a ecologia humana, a ecologia social, a sociologia ambiental etc.) e a filosófica (p. ex., a ecologia profunda). Se na ecologia biológica o conceito central é o de ecossistema biológico, na ecologia linguística (linguística ecossistêmica) o conceito central é o de ecossistema linguístico. Ele consta de uma população ou povo (P) que só o é por seus membros conviverem em um lugar, que é seu meio ambiente ou território (T). Por conviverem nesse território, interagem (I) entre si e com o ambiente. A única diferença entre o ecossistema linguístico e o biológico, se é que se pode dizer que se trata de diferença, é que no ecossistema linguístico as interações recebem o nome de língua (L), de modo que o ecossistema linguístico é a totalidade PTL (L=I). Esse ecossistema tem sido representado, em sua forma geral, como se vê na figura 2. É claro que esse ecossistema contém três outros em seu interior, ou seja, o ecossistema natural, o mental e o social, como se pode ver na postagem "Linguística ecossistêmica", entre outras, deste mesmo blog.

P
/    \
L-----T
Ecossistema Linguístico
Fig. 2

Aqui as interações são também de dois tipos: interação pessoa-pessoa, equivalente à interação organismo-organismo, e interação pessoa-mundo, equivalente a interação organismo-mundo. Linguístico-ecossistemicamente, as interações pessoa-pessoa são chamadas de comunicação e as interações pessoa-mundo são conhecidas como referência, nomeação, denotação ou significação.
Assim como a propriedade definidora do ecossistema biológico são as interações, não os organismos nem seu habitat em si, a propriedade central do ecossistema linguísico são as interações linguísticas, a comunicação, ou melhor, a interação comunicativa. Esta, por sua vez, insere-se em uma ecologia da interação comunicativa (EIC). Sempre que dois membros da comunidade linguística, outro nome para ecossistema linguístico, se engajam em uma interação comunicativa produzem uma sequência de atos de interação comunicativa, cujo fluxo é chamado de diálogo ou fluxo interlocucional. Em cada ato de interação comunicativa (AIC) os interlocutores se comunicam referindo-se a algo exterior à linguagem. Por outro lado, só se referem a algo comunicando-se. Os dois aspectos estão inextricavelmente interligados.

3. O que vem a ser ecossistema cultural?
Antes de falar de ecossistema cultural é importante averiguar o que vem a ser cultura. A palavra é derivada do verbo latino cólere (cultivar, plantar), via particípio passado cultus. Até hoje no Brasil rural se ouve a expressão "terra de cultura", para terra boa para plantar. Marco Túlio Cícero (106–43 a.C), usando a metáfora agrícola, falou em cultura animi, algo como "cultura do espírito", com a intenção de distinguir a parte espiritual dos humanos como algo "superior" à mera materialidade, ideia que persiste até hoje em algumas acepções da palavra 'cultura'. Diversos antropólogos têm tentado definir o termo desde pelo menos final do século XIX, como Lewis H. Morgan e Edward B. Tylor. Tylor disse em seu clássico Primitive culture (1871) que cultura é "a complexa totalidade que inclui conhecimento, crenças, artes, moralidade, lei, costumes e qualquer outra capacidade ou hábito adquirido pelo homem como membro de uma sociedade". Portanto, para ele "cultura" está exclusivamente no nível social/espiritual. Outros autores incluíram a "cultura material", sobretudo quando começaram a fazer pesquisas etnográficas, caso do antropólogo americano Leslie White. A cultura material incluiria a tecnologia, a arquitetura e a arte, entre outras. A definição do dicionário Aurélio, também inclui a dimensão material, como se vê no termo "materiais" da definição de que cultura é "o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade". Para uma visão panorâmica da antropologia cultural, pode-se consultar Stagl (1974).
Para as finalidades do presente ensaio, cultura pode ser tida como tudo que faz parte do acervo de um povo, mas que não pertence exclusivamente à natureza, embora isso não signifique que cultura se oponha a ela. Na verdade, natura existe sem cultura, mas cultura não existe sem natura. Bookchin (1993) diz que a cultura é uma 'segunda natureza', dependente da 'primeira natureza' e sobreposta a ela. Nesse sentido, cultura é de natureza semiótica, sobretudo no sentido da semiótica de Peirce: tudo que se encontra no contexto de determinado povo representa algo para ele. Seus membros podem referir-se a tudo em suas interações comunicativas quotidianas. Essa é a concepção implícita em Eco (1974) e em Couto (1981, 1982, 1999). De certa forma, cultura é constituída de signos (indiciais, icônicos e simbólicos), organizados em códigos, ou seja, cultura é linguagem.
O semioticista estruturalista russo Iuri. M. Lotman analisou a cultura como sistema semiótico em relativo detalhe, usando como exemplo a cultura medieval por oposição á cultura renascentista. Enquanto que a primeira preferia ver no mundo o que tinha valor semiótico, de signo, a segunda enfatizava os realia. Na Idade Média, o valor dos humanos se resumia ao papel de reflexos da imagem de Deus, como parte dele, enquanto que no Renascimento o que importava eram os humanos como seres de carne e osso, não como imagens (signos) de Deus. Para Lotman, a cultura é um conjunto de códigos (linguagens), em que a língua é o código principal, ou seja, para ele a cultura é verbocêntrica. Para o que aqui interessa, é importante ressaltar que na proposta do autor, fica implícito que toda mensagem (resultado de atos de interação comunicativa) pode conter ingredientes dos mais variados códigos da cultura (Lotman 1979).  
Com isso, podemos tentar dar uma conceituação de ecossistema cultural. Trata-se dados signos e sistemas de signos de determinada comunidade, ou seja, tudo que é compartilhado por seus membros, tanto no nível material como no imaterial. Por ser compartilhado, pode eventualmente ser usado em atos de interação comunicativa, e o são. O primeiro de todos os ingredientes da cultura é a língua. Mas aí entram também os gestos, as crenças, os usos e costumes, os artefatos, aí inclusas as casas, os monumentos, as ferramentas e muito mais. Eco (1974) apresenta um conspecto relativamente detalhado do ecossistema cultural, embora sem usar o termo. Como se pode ver na figura 3, a representação do ecossistema cultural é homóloga à do ecossistema linguístico apresentado acima.



P
/    \
C-----T
Ecossistema Cultural
Fig. 3

Esse tripé deve ser lido da seguinte forma: para que haja uma cultura (C) é necessário que preexista um povo (P) convivendo em determinado lugar, que é seu território (T). O C no caso, ou seja, a cultura, seria tudo que P fez, faz e fará. No "fez" está o acervo guardado na memória e que garante a identidade do grupo. No "faz" estão os padrões de ação, no como lavram a terra, plantam, colhem, enfim, os modos tradicionais de agir, inclusive de comunicar. Tanto que uma das primeiras definições antropológicas de cultura foi a de que ela é "the ways of a people" (os modos [de se comportar] de um povo"). No "fará" estão os planejamentos e investimentos para o futuro, como a educação dos jovens.
Deixando de lado as definições de cultura e seus componentes pelos antropólogos, desde pelo menos final do século XIX, o ecossistema cultural como um todo vem sendo discutido por autores como Eco (1974), Preziosi (1977), entre muitos outros. No contexto do que viria a ser a linguística ecossistêmica, eu venho incluindo a língua em um contexto cultural mais amplo desde Couto (1981), usando " L" de "linguagem" em geral no lugar de "C" de "cultura". Por esse motivo, língua ficou representada por l1, ao lado dos demais sistemas de signos culturais, ou seja, das demais linguagens, que seriam l2, l3 até ln. Assim, l2, poderia ser o conjunto de regras culturais de comportamento, l3 seria a linguagem do sistema jurídico, l4 corresponderia à linguagem do trânsito e assim por diante. Nesse caso, eu falava em "cultura como um conjunto-universo de códigos" (p. 11-19). Numa publicação do ano seguinte, cultura foi vista como "um sistema de signos" (Couto 1982: 65-91), no contexto da gramática estratificacional, atualmente 'linguística neurocognitiva'. Entre os componentes da cultura, mencionavam-se as estruturas conceptuais, as atividades, os grupos sociais, os papéis e padrões comportamentais, as taxonomias (botânicas, zoológicas, topográficas etc.) e a língua. Em Couto (1999, seção 7.3), o assunto foi retomado no contexto da formação e transformação das línguas pidgins e crioulas, já com um pendor para a ecolinguística.
Como se pôde ver, a cultura foi tomada como uma macrolinguagem, que compreendia a língua, de uma perspectiva semiótica, ou seja, da perspectiva dos signos que formam as diversas linguagens. Daí o uso da palavra 'código', como designação do todo, ou seja, a linguagem, que unifica os diversos grupos de signos culturais em um todo. Foi mostrado que essas linguagens podem ser multissígnicas, ou seja, conter uma quantidade quase imensurável de signos, como a língua, e até unissígnicas, como uma pedrinha que ficava em cima da mesa do professor antigamente, e que podia ser pega por qualquer aluno que desejasse ir ao banheiro, sem pedir licença ao professor. Se a pedrinha não estivesse lá, teoricamente ninguém podia ir ao banheiro. Tratava-se de uma linguagem (código) que constava de um único signo. Entre os dois extremos, temos os mais variados tipos de linguagem/código, compreendendo quantidades as mais variadas de signos.
Podemos encarar o ecossistema cultural de mais de uma perspectiva. De uma delas, podemos dizer que ele consta de cultura imaterial e cultura material. Como o próprio nome já sugere, a cultura material inclui tudo que é de natureza física, como os artefatos, os padrões de construção, os monumentos, as cidades, as esculturas, as roupas, os garfos etc. A cultura imaterial, por seu turno, açambarca tudo que caracteriza determinado povo, mas que não seja de natureza física. É o caso da língua, das tradições, das festividades, dos modos de comportamento etc. De acordo com uma perspectiva que privilegia a língua, temos, por um lado, a língua e, por outro, objetos, fatos ou fenômenos. Os objetos/fatos podem ser (a) naturofatos, (b) artefatos, (c) mentefatos e (d) sociofatos.
Gostaria de salientar que, da perspectiva ecossistêmica aqui adotada, a distinção 'cultura material x cultura imaterial' é interessante uma vez que implica que há um entrelaçamento entre elas. O que é mais, a o termo 'imaterial' é derivado de 'material' mediante a adjunção do prefixo in-. Isso está em sintonia com a tese do filósofo da linguagem e ecolinguista alemão, Peter Finke, e do proponente da ecologia social, Murray Bookchin. De acordo com eles, cultura emerge de natura. Mas, quem comparou explicitamente as inter-relações entre ecossistema cultural e ecossistema linguístico foi Trampe (2002), dando continuidade à proposta original de Finke.
A língua é o componente mais importante da cultura de um povo, abrangendo a maior parte dela, como se pode visualizar na figura 4 abaixo. Os naturofatos associados à cultura de determinada comunidade compreendem tudo que pertence à natureza física, mas que tem algum valor simbólico para seus membros. Um dos casos mais conhecidos é o Monte Fuji, que é um símbolo do Japão, a cem quilômetros de Tóquio. Qualquer pessoa que tenha um mínimo de informação, ao vê-lo, saberá que está no Japão, pois o monte está nele. O Pão de Açúcar é um símbolo do Rio de Janeiro e, até certo ponto, também do Brasil. O canguru é um símbolo da Austrália. Dizem que os finlandeses têm cerca de sete símbolos nacionais que são seres da natureza. O panda-gigante da China parece ser outro exemplo. Para aplacar a reação dos naturófobos (aqueles que têm horror a associar fenômenos humanos/sociais a fenômenos naturais), podemos recorrer ao signo indicial de Peirce (1972: 115-134). De acordo com ele, o signo indicial (por oposição ao icônico e ao simbólico) se refere à coisa referida por estar naturalmente associado a ela. É o caso do continente pelo conteúdo (como o Monte Fuji e o Pão de Açúcar), e vice-versa, da parte pelo todo ("braço" por "trabalhador"), e vice-versa, da seta indicando determinada direção etc. Talvez seja um exagero incluir aqui os sete presumíveis naturofatos finlandeses, pois naturofato precisaria ser reconhecido inclusive pelos não finlandeses.
Entre os artefatos mais conhecidos de algumas culturas do mundo poderíamos mencionar, em um nível macro, a Muralha da China, a Torre Eiffel, a Torre de Pisa, o Cristo Redentor e a Estátua da Liberdade. No caso específico da cultura brasileira, temos ainda artefatos culturais como a cuíca, o berimbau, as estátuas em geral, os quadros de pintura, o formato das casas, a vestimenta, enfim, praticamente tudo que pertence ao que foi chamado de cultura material. Os mentefatos são constituídos por tudo que for de caráter psíquico nos indivíduos de determinado povo. Eu não tenho muita coisa dizer sobre o assunto. No entanto, fenômenos como sensação, percepção/percepto, imaginação, memória, cognição/conceito e outros parece pertencerem a esse domínio, uma vez que todos eles são de natureza intelectual. Há também os de natureza emocional, como prazer, dor, excitação, amor/ódio, emoção, stress/depressão, irritação, alegria etc., além dos de natureza volitiva como vontade, desejo, pulsão, enfim, as volições e nolições.
Os sociofatos, por seu turno, constituem a esmagadora maioria dos dados da cultura, sendo que para alguns antropólogos ela seria constituída só de sociofatos. De qualquer forma, gostaria de salientar as regras culturais (RC) ou comportamentais. Elas podem complementar as regras interacionais da linguística ecossistêmica, logo, ser usadas nos atos de interação comunicativa. Na verdade, todo e qualquer elemento da cultura de um povo pode ser usado na interlocução entre quaisquer dois de seus membros. Apesar de algumas das primeiras definições de cultura incluírem apenas os sociofatos, acabamos de ver que não podemos deixar de lato os naturofatos e os mentefatos. Podemos representar sinoticamente os componentes da cultura da seguinte forma:

Cultura:
1) Língua: a) regras interacionais, b) regras sistêmicas.
2) Objetos/fatos: a) naturofatos, b) artefatos, c) mentefatos, d) sociofatos.

É importante ressaltar que o ecossistema discutido em Couto (2016) constituía, juntamente com as comunidades vizinhas, o ecossistema cultural rural. Ele se opunha ao ecossistema cultural urbano, vigente nas cidades. Naquela época, de cerca de 1941/2 a 1957, as regiões rurais brasileiras tinham muito pouco contato com as cidades, motivo pelo qual sua língua e cultura eram bastante diferentes das respectivas variedades urbanas. Cada polo dessa oposição tinha alguma ideia do que era a outra, mas apenas uma vaga ideia. Eram mundos diferentes. O ecossistema cultural rural é centrípeto, voltado para si mesmo, pois a lide diária pela sobrevivência não dá tempo às pessoas para grandes elucubrações teóricas. O ecossistema urbano, ao contrário, é centrífugo, com habitantes de cada cidade voltados para a cidade maior (Rio de Janeiro, São Paulo etc.), e as elites desta voltadas para a Europa e os Estados Unidos. Isso a despeito de grande parte dos residentes nas cidades serem de origem rural.
Pelo menos aparentemente, não há um "ecossistema cultural estatal", para manter o paralelo com as variedades da língua chamadas de dialeto estatal, dialeto urbano e dialetos rurais naquele ensaio. Isso mostra mais uma vez que a língua estatal é uma realidade artificial, abstrata, induzida das realidades linguísticas concretas. Não existe um ecossistema estatal que a englobe e lhe dê identidade.
Repitamos, tudo que faz parte do ecossistema cultural pode ser usado para o entendimento nos atos de interação comunicativa. No caso da comunidade de fala recém-mencionada, elementos da natureza (naturofatos) como a arvinha, a serra da Capetinga e outros eram parte do respectivo ecossistema cultural. A primeira era um local de as crianças brincarem, ao passo que a segunda era observada para se ver se viria chuva. Enfim, praticamente todos os microtopônimos, como elementos físicos, pertenciam ao ecossistema cultural local, além do nome que tinham. Consequentemente, podiam ser usados, e eram usados, para o entendimento nos atos de interação comunicativa.

4. Inter-relações entre ecossistema linguístico e ecossistema cultural
Ja vimos que quem primeiro comparou cultura e língua de uma perspectiva ecossistêmica de modo explícito foi Wilhelm Trampe, como se pode ver em Trampe (2002) e outras publicações do autor. No entanto, implicitamente as duas já vinham sendo comparadas desde as primeiras reflexões antropológicas sobre cultura. A ideia de se comparar as duas no contexto do que viria a ser a linguística ecossistêmica, porém, recua a Couto (1981). Depois ela foi retomada em Couto (1983: 34-36) e ampliada em Couto (1999). No entanto, o conceito como tal, associando explicitamente língua e cultura, foi apresentado pela primeira vez em Couto (2016). Nada do que apresentei nesses ensaios era novidade, pois os antropólogos já vinham discutindo o assunto desde pelo menos o final do século XIX, como vimos acima. O fato é que atualmente já existe até uma revista internacional dedicada às relações entre língua e cultura. Trata-se de International Journal of Language and Culture, publicada pela editora John Benjemins, de Amsterdam (Holanda).
Que a língua é parte da cultura parece não restar a menor dúvida. Tanto que a representação do ecossistema linguístico (fig. 2) e a do ecossistema cultural (fig. 3) têm a mesma aparência. A relação entre os dois é de inclusão: o ecossistema linguístico está incluído no ecossistema cultural, é parte dele, como se vê na figura 4.

 P
/  / \
/   /      \
C---L----T
Ecossistema Cultural (CPT)
Ecossistema Linguístico (LPT)
Ecossistema Linguístico-Cultural (C/LPT)
Fig. 4

A inclusão do ecossistema linguístico no ecossistema cultural tem muitas implicações. A primeira e mais óbvia é a de que o povo (T) e o território (T) dos dois são os mesmos. A segunda é o fato de que a língua de um povo é parte da cultura desse povo, é parte integrante dela. A terceira é que grande parte da cultura desse povo é de natureza linguística. Tanto que a maior parte do triângulo do ecossistema cultural é ocupada pelo ecossistema linguístico. A quarta refere-se ao fato de que tanto um como outro ecossistema são de natureza semiótica. A quinta consiste no fato de a língua poder ser veículo de cultura, ou seja, além de ser parte dela, pode manifestá-la também. A sexta consiste no fato de haver uma parte da cultura que fica fora do domínio da língua, justamente a composta pela maioria dos sociofatos, mas praticamente por todos os naturofatos e os artefatos. Cultura e língua são constituídas de representações, fato que nos leva imediatamente à questão dos índices, dos ícones e dos símbolos de Peirce (1972). Tudo que pertence a elas representa alguma coisa para os membros da comunidade. No caso da língua são os padrões de interação comunicativa (PIC), as palavras, as frases etc. Na cultura temos os fenômenos, ações, fatos (naturofatos, mentefatos, sociofatos, artefatos).  
A única diferença entre ecossistema linguístico e ecossistema cultural, se é que se pode falar em diferença, consiste em que o ecossistema cultural tem, no lado língua (L), o C de cultura. Entretanto, isso não é problema. Ambas são de natureza semiótica. Como vimos acima, cultura é também linguagem. Tanto que ela já foi representada por L, e a língua por l1, ou seja, o componente número um da cultura, sendo os demais l2, l3 etc. Já vimos também que l2 poderia ser, por exemplo, as regras culturais, de que as regras interacionais do ecossistema linguístico fazem parte. Além disso, e talvez em consequência disso, há uma parte da cultura que fica fora do domínio da língua. No entanto, como se pode ver nos exemplos dados abaixo, as regras culturais podem ser usadas em atos de interação comunicativa. Aliás, todo e qualquer item da cultura de um povo pode ser usado neles.
Embora língua e cultura (ecossistema linguístico e ecossistema cultural) estejam inextricavelmente entrelaçadas, um povo pode perder a língua sem perder totalmente a cultura, tanto que parte da última fica fora do domínio da primeira. Isso ocorreu com muitos grupos de ciganos, como os calons do Brasil, os judeus no Leste Europeu e na Península Ibérica, muitos grupos indígenas etc. No entanto, é impossível perder a cultura e manter a língua, uma vez que é impossível perder o todo sem perder suas partes. Um povo (P) pode perder também o território (T), como aconteceu com muitos nômades, como os próprios judeus e outros, mas sobreviver como uma cultura mutilada, não prototípica, ancorada ou até escorada no T de outro P. O que a cultura não pode perder é a população (P), pois a cultura só existe como hóspede da população, assim como a língua também o é. Mufwene (2001) chega a afirmar que a língua é uma espécie parasita (epífita) da população. Sem povo não há cultura nem língua. Na verdade, território é o hospedeiro da população, que é hospedeira da cultura e da língua.
O linguista brasileiro Joaquim Mattoso Câmara Jr. apresentou uma síntese bem interessante das relações entre língua e cultura. De acordo com ele

1. A língua é parte da cultura; 2. É, porém, parte autônoma, que se opõe ao resto da cultura; 3. Explica-se até certo ponto pela cultura e até certo ponto explica a cultura; 4. Tem, não obstante, uma individualidade própria, que deve ser estudada em si; 5. Apresenta um progresso que é o seu reajustamento incessante com a cultura; 6. É uma estrutura cultural modelo, que nos permite ver a estrutura menos nítida, imanente em outros aspectos da cultura (Câmara 1972: 273).
Áreas culturais podem conter em seu interior mais de uma língua, caso em que teríamos bilinguismo ou multilinguismo. Na Suíça, por exemplo, são faladas quatro línguas (alemão, francês, italiano e engadino), mas os padrões culturais do país são aproximadamente os mesmos. O mesmo se pode dizer de Quebec, no Canadá, em que se falam francês e inglês em um mesmo contexto cultural. Na região do Parque Indígena do Xingu são faladas diversas línguas, mas os povos que nele se encontram compartilham muitos traços culturais, até mesmo antes da formação do Parque. Pode ocorrer o contrário também, ou seja, falantes de uma língua estarem envolvidos em mais de uma cultura, caso em que teríamos biculturalismo ou multiculturalismo. Nas fronteiras entre povos de línguas tipologicamente muito diferentes isso deve ocorrer, ou seja, um lado não fala a língua do outro, mas compartilha com ele muitos hábitos culturais.
Um caso interessante de relação entre língua e cultura é o de uma família brasileira, por exemplo, que tenha um membro surdo em seu seio. Mesmo que o surdo não fale o português, ele compartilha muito da cultura com os parentes ouvintes. Tanto que interage com eles por meio de gestos e mímicas diuturnamente. O surdo domina praticamente tudo da cultura brasileira praticado no domínio doméstico. O mesmo não se daria com um chinês que tivesse aprendido o português na escola em seu país e viesse conviver com a mesma família. Apesar de aparentemente "falar português", ele terá muita dificuldade na interação com os membros da família, pois não está familiarizado com os padrões culturais locais. Isso mostra que as regras interacionais e as regras culturais são mais importantes numa interação comunicativa do que exclusivamente as regras sistêmicas. Para se comunicar bem em determinada língua não basta dominá-las e ser capaz de formar frases gramaticais ad libitum. Isso é importante, mas apenas como auxiliar dos dois outros tipos de regras. A interação fica muito mais difícil se o chinês for monoglota em chinês. Tratar-se-ia de uma situação muito diferente do surdo monoglota em LIBRAS.
Retomemos a questão de signos culturais extralinguísticos que podem ser usados na interação comunicativa. Pensemos no caso de alguém que estivesse indo de avião da Europa para o Japão. A certa altura ele pergunta a quem está sentado na poltrona ao lado se já estão chegando. Se essa pessoa olhar pela janela e disser "Já estou vendo o Monte Fuji", estará dizendo algo como "Sim, já estamos chegando", pois esse monte é parte integrante do Japão. Quem o vê sabe que está no país. O mesmo se poderia dizer de alguém chegando ao Rio e dissesse que já está vendo o Cristo Redentor. No primeiro caso teríamos um dado cultural do domínio dos naturofatos sendo usado em um ato de interação comunicativa; no segundo, um artefato, na mesma função.
As relações entre língua e cultura são de fundamental importância no ensino e na aprendizagem de línguas estrangeiras. Como acabamos de ver, não basta aprender livrescamente a nova língua e se tornar capaz formar frases gramaticais. As regras culturais e as regras interacionais são mais importantes do que as regras sistêmicas (gramática). Na seção seguinte abordarei esse assunto perfunctoriamente.

5. Ecossistema cultural e aprendizado de línguas estrangeiras
O fato de os especialistas em linguística aplicada e em tradução enfatizarem tanto a questão cultural não é por acaso. Eles se veem frente não apenas à questão do bilinguismo e à do multilinguismo. Para eles é de fundamental importância também a consciência e um certo conhecimento também do multiculturalismo. Os tradutores, por exemplo, têm que se haver com a interculturalidade. Até mesmo no nível comunitário os povos estão enfatizando o fato de que ser multicultural é ser mais pujante. Um país monocultural é muito mais pobre culturalmente do que um país multicultural. Se na ecologia a diversidade biológica é riqueza, o mesmo se dá na ecologia humana e na social, ou melhor, no ecossistema cultural. Quanto mais diversidade cultural, mais riqueza cultural.
Por esses e outros motivos, não basta aprender uma segunda ou mais línguas. É preciso aprender também pelo menos quais são os naturofatos e artefatos, bem como os padrões de comportamento mais apropriados nas diversas situações, quais deles são mais comuns nos atos de interação comunicativa. Por exemplo, quem estuda uma língua pelo livro em seu país natal e vai para o país em que a língua que aprendeu é falada pode ter sérios problemas se não conhecer as regras interacionais e as regras culturais associadas a essa língua. Certa feita um brasileiro que se encontrava em uma mesa de refeição com seus anfitriões na Inglaterra disse a um deles Do you pass this to me? (você me passa isto?). O inglês achou que o brasileiro não fora polido, pois, na sua língua é obrigatório incluir o please (por favor). No Brasil, a entoação interrogativa tem a mesma função do "por favor", mas na Inglaterra não. Vale dizer, pela enésima vez, que não basta adquirir regras sistêmicas que permitam formar frases gramaticais.
Uma outra situação me foi relatada por Clea Rameh, brasileira que ensinou português em Washington, EUA, por muitos anos. Sua experiência mostrou que às vezes é bom o estrangeiro não falar a língua local como os nativos, sem dominar as regras culturais e as regras interacionais no mesmo nível. Se ele cometer alguma gafe cultural, será perdoado por perceberem pelo sotaque que é estrangeiro. No entanto, se ele falar a língua como eles, poderá ser até agredido diante da transgressão de alguma regra cultural. Enfim, no aprendizado de línguas estrangeiras língua e cultura têm que andar de mãos dadas.
Em Couto (2007: 415-416), eu comentei rapidamente o caso de dois surdos. O primeiro deles é uma garota de uns 12 anos de idade, surda de nascença. Ela não aprendeu LIBRAS nem o português oralizado. Pode-se dizer que não aprendeu nenhuma língua. No entanto, comunica-se com os parentes por meio de gestos caseiros para todas as suas necessidades interacionais. É uma pessoa extremamente inteligente, eu diria mesmo de inteligência acima da média. Tanto que, quando alguém levou um computador usado para a família, foi ela quem primeiro conseguiu lidar com ele, inclusive indo além do que lhe foi ensinado. Além até mesmo de outro membro da família que está no término do segundo grau.
A segunda pessoa é um rapaz de uns 25 anos, também surdo de nascença. Tampouco ele aprendeu LIBRAS ou a oralizar o português. O que ele faz é interagir com os membros da família e amigos por meio de mímica doméstica. Inclusive comigo ele se comunicou, perguntando-me se eu ia ficar muitos dias na localidade ou se ia embora logo. No geral, ele fica sempre atento, observando quem está conversando, aparentemente, tentando deduzir o que dizem pela leitura labial, mas não parece que o conseguisse nem de maneira sofrível.
Um fato interessante é que esse meio de comunicação que os dois surdos em questão desenvolveram não tem gramática (regras sistêmicas). Ele consta apenas de alguns gestos, que apontam para determinadas coisas ou indicam determinadas ações, ou seja, ele consta apenas de itens lexicais. A conclusão inevitável é a de que o essencial na linguagem não é a gramática, mas o léxico. A gramática seria apenas um recurso adicional para expandir sua capacidade expressivo-comunicativa. Isso decorre do fato de que na verdade o essencial na língua não são as regras sistêmicas, mas a interação comunicativa, com suas regras interacionais. Esses surdos compartilham com os demais membros de suas famílias grande parte do ecossistema cultural, no qual se insere a maior parte das regras interacionais, exceto as que são naturais. É por compartilharem esse ecossistema, e os universais da comunicação, que podem comunicar-se.
Da perspectiva da linguística ecossistêmica eles têm uma língua sim. Com efeito, há uma população (os membros da família), convivendo no espaço da casa, que é seu território, no interior do qual interagem por meio de mímicas. Trata-se de uma comunidade de fala de pequenas dimensões, mas com todos os ingredientes de um ecossistema linguístico, ou seja povo (P), território (T) e modo de interagir (L).

6. Observações finais
Como vimos no lugar apropriado, ecossistema cultural se refere a tudo que tem valor sígnico (simbólico) para determinado povo (P). Não se trata de cultura no sentido de quem diz que fulano tem "cultura", é "civilizado", como faziam os gregos, para os quais "civilizados" eram eles; todos os demais povos eram "bárbaros". Tanto que a palavra tinha valor onomatopaico, indicando aquele que "não fala", apenas faz "br.br.br". Quem "falava" (tinha língua) eram só os gregos. Os demais "não falavam" porque os gregos não os entendiam.
A expressão "língua de cultura" é altamente preconceituosa, pois refere-se às línguas que têm uma "grande" literatura, como grande parte das línguas europeias. Para os gregos a única "língua de cultura" era o grego. Contrapondo-se a essa visão, o líder africano e ex-presidente da Guiné Ahmed Sékou Touré (1922-1984) afirmou que na África as línguas de cultura são as línguas africanas, uma vez que são elas que expressam as culturas africanas. Essa asserção está inteiramente certa e em sintonia com as concepções de cultura comentadas acima. Todas as línguas africanas estão inseridas em um ecossistema linguístico que, por sua vez, está inserido em um ecossistema cultural. Existem diversos grupos étnicos na África, cada um deles com sua própria língua, inserida em sua própria cultura. Há algumas exceções, no entanto, como os pigmeus, que praticamente já perderam a língua, além de outros povos, como o cassanga na Guiné-Bissau. A causa disso tem sido geralmente a invasão dos colonizadores europeus.

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